A marca de tequila Clase Azul consolidou sua presença no México com a inauguração do complexo La Hacienda, localizado em um terreno de 22 hectares nas terras altas de Jalisco. O projeto, que iniciou sua construção em 2017, representa um movimento estratégico do fundador Arturo Lomelí para integrar as operações de produção, armazenamento e atividades culturais da empresa em uma única estrutura monumental.

Para viabilizar a obra, Lomelí comissionou cinco estúdios de arquitetura locais, incluindo Atelier ARS, Elías Rizo Arquitectos, Estudio Macías Peredo, Tacher Arquitectos e Huber Design Studio. A colaboração resultou em um campus que busca elevar o processo de fabricação de tequila ao status de patrimônio cultural, utilizando materiais que remetem à geologia avermelhada da região de Jalisco.

O conceito do horizonte cerâmico

O projeto foi conduzido pelo Atelier ARS, que assumiu o masterplan do complexo. O elemento central, denominado pelos arquitetos de "horizonte cerâmico", é a nave de engarrafamento e armazenamento. Para evitar a obstrução da paisagem natural, a estrutura foi parcialmente enterrada, permitindo que o telhado se conecte diretamente à topografia do terreno.

Essa abordagem arquitetônica não apenas preserva as vistas distantes, mas também resolve o desafio de escala industrial exigido pela marca. A utilização de abóbadas catalãs e paredes de tijolos autoportantes reforça a intenção de mesclar técnicas construtivas tradicionais com a robustez necessária para uma operação de grande porte, demonstrando que a escala industrial não precisa sacrificar a identidade estética.

Mecanismos de produção e materialidade

O complexo é definido por uma paleta de cores dominada por tons terrosos, alcançada através do uso de tijolos, concreto pigmentado e metais avermelhados. Segundo os responsáveis pelo projeto, a escolha dos materiais foi um exercício deliberado de valorização dos produtores locais. A abundância de ferro no solo da região de Jalisco inspirou a coloração das estruturas, criando uma conexão direta entre o edifício e o território.

Mais do que uma unidade fabril, o complexo funciona como um ecossistema. O Estudio Macías Peredo projetou as oficinas de cerâmica e tequila, onde a disposição das paredes de concreto pigmentado cria pátios internos que organizam o fluxo de trabalho. A integração de sistemas técnicos de produção com a arquitetura artesanal é, segundo os arquitetos, um diferencial raro em instalações industriais contemporâneas.

Implicações para o setor de destilados

A criação do La Hacienda sinaliza uma tendência crescente entre marcas de luxo de investir em experiências de marca que extrapolam o produto final. Ao oferecer espaços de exposição, um centro de visitantes e o restaurante OYA, a Clase Azul posiciona-se não apenas como uma fabricante de bebidas, mas como uma guardiã da cultura mexicana.

Para o mercado, a obra levanta questões sobre a longevidade das estruturas industriais. Ao optar por materiais duráveis e técnicas que transcendem modismos arquitetônicos, a marca busca uma presença perene na paisagem de Jalisco. Esse movimento espelha investimentos similares observados em outros setores de bebidas globais, onde a arquitetura passa a ser um pilar central da estratégia de branding e valorização de ativos.

Perspectivas futuras da arquitetura industrial

O que permanece em aberto é como essa monumentalidade afetará a operação cotidiana da marca a longo prazo. O uso extensivo de pátios, passarelas e espaços abertos exige uma manutenção rigorosa para preservar a intenção estética original. A transição entre a funcionalidade da fábrica e a hospitalidade do centro de visitantes será o teste real da eficácia desse modelo integrado.

Observar a evolução do complexo permitirá entender se o modelo de "arquitetura como marca" conseguirá, de fato, resistir ao tempo e manter sua relevância cultural. A integração bem-sucedida entre o artesanal e o industrial abre precedentes para que outras empresas do setor repensem o design de suas plantas operacionais como espaços de engajamento público.

O projeto La Hacienda sugere que a arquitetura industrial pode ser uma extensão da narrativa de marca, transformando a infraestrutura produtiva em um destino cultural perene. A medida em que o complexo amadurece, a interação entre a produção artesanal de tequila e a escala monumental das construções continuará a ser um ponto de observação para o setor de arquitetura e design de luxo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Dezeen