Anita e Poju Zabludowicz, figuras centrais no mercado internacional de arte e presenças constantes na lista ARTnews Top 200, anunciaram um leilão de peso marcado para junho. A venda, que será realizada pela casa Christie’s em Londres, engloba 106 obras e deve arrecadar cerca de 15 milhões de libras, ou aproximadamente 20,1 milhões de dólares. O lote principal é a pintura "Mirror Head" (1977), de Philip Guston, avaliada em até 7,38 milhões de dólares.

O leilão ocorre em um momento de mudança estratégica para o casal, que nos últimos anos reduziu significativamente sua presença física no circuito artístico. Em 2023, os Zabludowicz encerraram as atividades de seu museu privado em Londres, que operou por mais de 15 anos. A decisão marcou uma transição para um modelo focado no empréstimo de obras e na manutenção de espaços em locais como a ilha de Sarvisalo, na Finlândia.

O peso das controvérsias políticas

A saída do casal dos holofotes institucionais não foi isolada de pressões externas. Antes mesmo do agravamento do conflito em Gaza em 2023, os Zabludowicz já enfrentavam críticas severas por supostos investimentos feitos via Tamares Group, a empresa de private equity presidida por Poju Zabludowicz. Grupos de artistas chegaram a "retirar a autoria" de obras que pertenciam à coleção do casal em 2021, acusando-os de cumplicidade com o que descreveram como um sistema de apartheid na região.

A tensão atingiu um ponto crítico em 2023, quando artistas finlandeses boicotaram o Museu de Arte Contemporânea Kiasma, em Helsinque, devido ao histórico de financiamento recebido da família. O museu, em resposta, rompeu seus laços com os colecionadores. A situação forçou o casal a emitir uma declaração pública defendendo uma solução de dois Estados, enquanto negavam investimentos em áreas ocupadas ou interesses militares, reiterando que a maior parte do capital da Tamares está alocada no Reino Unido, EUA e Finlândia.

Dinâmicas do mercado de arte

No mercado de arte contemporânea, a procedência e a imagem dos colecionadores tornaram-se variáveis de risco tão relevantes quanto a autenticidade das obras. Quando colecionadores de alto nível enfrentam boicotes, o impacto não recai apenas sobre a reputação pessoal, mas sobre o valor de mercado de seus ativos. A decisão de vender uma parcela expressiva da coleção agora sinaliza uma possível reestruturação de portfólio diante de um ambiente onde o ativismo artístico consegue, de fato, alterar a trajetória de instituições museológicas.

A Christie’s, por sua vez, mantém a neutralidade habitual, omitindo qualquer menção às controvérsias em seu comunicado oficial. A casa de leilões foca no valor intrínseco das peças, que incluem nomes como Beatriz Milhazes, Damien Hirst e Takashi Murakami. Essa separação entre o objeto de arte e a biografia do proprietário é um desafio constante para as casas de leilões, que precisam equilibrar o interesse dos vendedores com a sensibilidade crescente de um público comprador cada vez mais atento a questões éticas.

Implicações para o ecossistema cultural

O caso Zabludowicz serve como um precedente sobre como o ativismo político pode reconfigurar o financiamento da cultura. A pressão exercida por artistas e instituições coloca em xeque a longevidade de coleções privadas que dependem de parcerias com museus públicos. Para o mercado brasileiro, que possui fortes laços com a cena artística europeia, o episódio reforça a necessidade de transparência nas origens dos recursos que sustentam exposições e aquisições.

Além disso, o movimento dos Zabludowicz sugere uma tendência de "desinvestimento" em espaços físicos, que exigem manutenção constante e visibilidade, em favor de uma gestão mais discreta e globalizada. Se, por um lado, isso permite que as obras circulem por novos lares, por outro, retira do público o acesso a acervos que antes estavam consolidados em instituições privadas. O futuro dessas obras, agora dispersas, dependerá da disposição de novos colecionadores em absorver esse legado sob o escrutínio atual.

Perspectivas e incertezas

O que permanece em aberto é se o leilão conseguirá atingir as metas financeiras projetadas pela Christie’s, dado o histórico recente de ativismo contra os proprietários. O mercado de arte, embora resiliente, é altamente sensível à percepção pública. A reação dos lances no dia 25 de junho servirá como um termômetro sobre a tolerância dos compradores em relação às controvérsias políticas que cercam figuras influentes do setor.

O futuro da coleção Zabludowicz, conforme descrito por Anita, é apresentado como um ciclo contínuo de renovação. Resta observar se essa "nova vida" das obras será suficiente para apagar as tensões do passado ou se o mercado continuará a ver a procedência como um fator determinante para a valorização ou desvalorização de ativos artísticos. A história da arte, como bem pontuou a colecionadora, segue em evolução, mas os critérios para definir quem escreve essa história estão sob reavaliação constante.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · ARTnews