A manhã em Veneza costuma ser um exercício de contemplação histórica, onde o peso da tradição se encontra com a efervescência da Bienal. No entanto, para o coletivo de artistas conhecido como fierce pussy, a experiência recente foi marcada por uma colisão direta com a autoridade municipal. Nancy Brooks Brody, Joy Episalla, Zoe Leonard e Carrie Yamaoka haviam planejado uma intervenção urbana que pretendia transformar as paredes da cidade em um manifesto de boas-vindas para pessoas queer e trans. O projeto, que utilizava a icônica figura do Leão de Veneza reinterpretada como um felino doméstico, foi subitamente removido das ruas antes mesmo da abertura oficial da exposição, sob alegações de censura que ecoam tensões políticas latentes na Itália contemporânea.

A frustração do grupo, manifestada publicamente através das redes sociais, revela uma dinâmica recorrente em grandes eventos culturais: a tensão entre a curadoria artística, que busca a diversidade, e o poder público, que frequentemente impõe limites à ocupação do espaço urbano por discursos considerados sensíveis. Enquanto a Bienal, por meio da exposição 'In Minor Keys' curada por Koyo Kouoh, buscava integrar a voz do coletivo em seu ambiente controlado, a cidade de Veneza parecia pouco disposta a permitir que essa mesma voz ecoasse em seus becos e praças. A remoção dos cartazes originais, posteriormente realocados para o interior do Arsenale, transforma o ato de visibilidade em um objeto de museu, confinando o discurso dentro de um perímetro institucional seguro.

A política do espaço público e o papel da arte

A censura exercida pela prefeitura de Veneza não é um evento isolado, mas um sintoma das disputas sobre quem tem o direito de ocupar o espaço público e o que pode ser exibido nele. Historicamente, a Bienal de Veneza funcionou como uma vitrine de liberdade criativa, mas a cidade que a abriga é um organismo vivo, regido por normas que frequentemente entram em conflito com a natureza transgressora da arte contemporânea. Quando a prefeitura decide remover cartazes que celebram identidades queer, ela não está apenas limpando uma superfície; está, na prática, definindo os limites do que considera 'aceitável' dentro de sua geografia urbana.

Para coletivos como o fierce pussy, a arte nunca foi apenas um objeto estético, mas uma ferramenta de intervenção política. A decisão de responder à censura com a distribuição de adesivos 'rogue' — um termo que remete à resistência e à autonomia — demonstra uma recusa em aceitar a domesticação do discurso artístico. Ao espalhar pequenas versões de seus cartazes em lugares não autorizados, as artistas retomam uma tática clássica do ativismo, onde a repetição e a onipresença servem como contra-ataque à tentativa de silenciamento institucional. O conflito, portanto, deixa de ser sobre a imagem do leão-gato e passa a ser sobre a capacidade do artista de contornar a autoridade.

Mecanismos de controle e a resistência criativa

O mecanismo de censura em Veneza opera de forma sutil, utilizando regulamentos de urbanismo e licenciamento de publicidade para deslegitimar mensagens que desafiam o status quo. Ao tratar os cartazes do coletivo como material publicitário não autorizado, a administração municipal consegue justificar a remoção sem entrar no mérito ideológico do conteúdo. É uma forma de burocratizar o silêncio, tornando a censura uma questão de conformidade administrativa em vez de uma decisão política explícita. Esse tipo de controle é eficaz porque desvia a atenção da mensagem original, forçando os artistas a gastar energia em disputas técnicas.

Por outro lado, a reação do coletivo revela a fragilidade desse controle burocrático na era das redes sociais. A censura, ao invés de apagar a mensagem, acabou por amplificá-la. A imagem dos cartazes, agora viralizada, ganhou uma carga de urgência que dificilmente teria se tivessem sido simplesmente colados nas paredes. A resistência criativa, neste caso, funciona como um amplificador: quanto mais a prefeitura tenta conter o discurso, mais relevante ele se torna para o público que frequenta a Bienal. A estratégia do 'hit the streets' é um lembrete de que a arte, quando confrontada, tende a encontrar caminhos alternativos de circulação que o poder público não consegue monitorar integralmente.

Tensões entre a Bienal e a cidade

A Bienal de Veneza, como instituição, encontra-se em uma posição precária. Por um lado, ela precisa manter boas relações com a prefeitura para garantir o funcionamento logístico do evento; por outro, ela se posiciona como um bastião da diversidade e da inovação global. O episódio com o fierce pussy expõe o descompasso entre a curadoria da exposição, que busca temas inclusivos, e a realidade política local. Para os artistas, essa ambiguidade é um campo de batalha constante, onde a liberdade de expressão é negociada em cada esquina. A realocação dos cartazes para o interior do Arsenale, vista pelo coletivo como uma concessão, é um exemplo clássico de como instituições tentam neutralizar o conflito ao criar espaços de exceção onde o discurso é permitido, desde que não perturbe a ordem externa.

Para os espectadores e críticos, a situação levanta questões sobre o futuro da arte pública em cidades historicamente conservadoras. Se o espaço urbano se torna cada vez mais vigiado e regulamentado, a Bienal corre o risco de se transformar em uma bolha de liberdade isolada, desconectada da realidade política das ruas que a cercam. O caso do fierce pussy não é apenas sobre cartazes de arte, mas sobre a possibilidade de manter um diálogo aberto em um ambiente onde o poder público prefere o silêncio. A pergunta que permanece é se os eventos culturais de grande porte continuarão a ser capazes de desafiar o ambiente onde estão inseridos, ou se a conformidade se tornará o preço necessário para a sua existência.

O que a invisibilidade revela

O que acontece quando a arte é forçada a sair das ruas e a se esconder em pavilhões? A incerteza sobre o impacto dessa censura no longo prazo permanece, deixando um rastro de perguntas sobre a resiliência das vozes marginalizadas. A Bienal seguirá sendo um território de choque ou se tornará um santuário protegido, mas inofensivo? A observação dos próximos desdobramentos, não apenas em Veneza, mas em outros grandes centros culturais, será fundamental para entender se a censura institucional está ganhando fôlego ou se a criatividade dos coletivos independentes ainda possui a capacidade de romper as cercas impostas pelos governos locais.

A imagem do leão de Veneza, agora um gato doméstico colado em um beco escuro, permanece como um lembrete persistente da fragilidade do espaço público. Se a cidade é um palco, quem detém o controle das luzes e quem tem o direito de ditar o roteiro? Enquanto os adesivos continuarem a aparecer em lugares imprevistos, a disputa pela narrativa da cidade estará longe de ser concluída, deixando para o observador a tarefa de decidir o que é, afinal, uma intervenção permitida em um cenário que se pretende universal.

Com reportagem de ARTnews

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