Colm Tóibín, em sua análise sobre a obra poética de Thom Gunn, desvenda a complexidade e a profundidade de um artista que soube transformar a dor da perda em uma forma de "eloquência reticente". O ensaio, que introduz a coletânea "The Man with Night Sweats", publicada originalmente em 1992, mergulha nas estratégias líricas de Gunn para lidar com o sofrimento, a mortalidade e a fragilidade do corpo humano, temas que ganharam uma urgência particular em meio à epidemia de AIDS.
Tóibín destaca a atenção minuciosa de Gunn a poemas de lamento de autores como Sir Thomas Wyatt, Ben Jonson e W. B. Yeats. Ao analisar dois poemas de Wyatt que narram a execução de amigos, incluindo Anne Boleyn, Gunn percebe a força contida nas palavras que, em sua aparente familiaridade, intensificam o horror da situação. A forma como Wyatt descreve a cena – "The axe is home, your heads be in the street. The trickling tears doth fall so from mine eyes, I scarce may write, my paper is so wet" – é vista por Gunn como um exemplo de como a simplicidade da linguagem pode amplificar a gravidade do evento, sugerindo uma rotina sombria e doméstica para as execuções.
A Estratégia da Contenção
A análise de Tóibín revela que Gunn não se limitava a admirar a forma, mas compreendia as táticas de controle e contenção empregadas pelos poetas para expressar sentimentos complexos. Em poemas como "To Heaven" e "On My First Sonne" de Jonson, Gunn observa a "emoção difícil, escrupulosamente criada e qualificada", onde a "vontade de equanimidade não é simples nem constante". Da mesma forma, em "In Memory of Major Robert Gregory" de Yeats, Gunn aponta o "cuidado e a astúcia do estilo", onde o "acabamento" da obra serve para distanciá-la das decisões impulsivas, permitindo que o leitor acesse uma versão polida e elaborada da emoção.
Essas observações sobre a tradição poética de lamento informam a própria obra de Gunn. Em seu poema-título, "The Man with Night Sweats", a luta entre o pessoal e o universal, o corpo e a mente, é dramatizada pela escolha vocabular. Tóibín nota a predominância de palavras monossilábicas em contraste com termos de origem latina como "prospered" e "residue", que criam um efeito de distanciamento formal. A precisão descritiva, como a "clinging sheet" (lençol pegajoso) que é "literalmente úmido de suor", contrasta com a formalidade dos termos latinos, estabelecendo uma tensão que reflete a experiência física e emocional da doença.
A Dramatização do Corpo
O corpo, especialmente o corpo masculino, foi um tema recorrente na obra de Gunn. Em "The Man with Night Sweats", essa dramatização atinge um novo patamar de intensidade. Poemas como "Lament" e "Courtesies of the Interregnum" retratam a fragilidade e o declínio do corpo físico, transformando a doença em uma "força perdida e desamparada". A descrição de um amigo hospitalizado, afastado dos "placeres normais do reino do sol", e a imagem de "carne prime agora amolecendo em sua estrutura gigante" ilustram a forma como Gunn aborda a vulnerabilidade e a perda de substância física com uma "intensidade reverente".
Assim como Wyatt, Gunn em seus poemas tardios de lamento, opta por rimas mais diretas e linhas desornamentadas, encontrando nelas uma força maior do que em qualificações sutis ou ornamentos. A simplicidade e a clareza da dicção em "The Man with Night Sweats" não são meros artifícios estilísticos; elas funcionam como um mecanismo para absorver emoções difíceis e, simultaneamente, mantê-las à distância. Essa abordagem, segundo Tóibín, é uma forma de memorializar não apenas os amigos falecidos, mas também seus longos dias de agonia em uma época em que a AIDS era uma sentença de morte.
Implicações e Sobrevivência
A obra de Gunn, ao evitar o conforto fácil e ao buscar uma "eloquência reticente", reflete a experiência silenciosa de sobreviver à morte de outros. Os poemas cumprem o anseio de dizer algo "real e verdadeiro, mas também formal e exato, como para uma cerimônia". A escolha de Tóibín em destacar a influência de San Francisco, onde muitos amigos de Gunn faleceram e onde o poeta encontrou felicidade e liberdade, adiciona uma camada de significado, transformando as elegias em monumentos a um período de "dor e luto comunitários".
A força dos poemas reside, em parte, na capacidade de Gunn de manter sua própria voz "o mais quieta e impessoal possível sob a pressão de tanta perda". Conforme escreve Tóibín, citando a análise de Gunn sobre Thomas Hardy, o poeta "vê sua emoção como algo que qualquer pessoa em sua situação seria capaz de sentir". Essa exclusão da personalidade do falante, mesmo quando a emoção é o tema, permite que o foco permaneça no sujeito, na pessoa morta ou moribunda, concentrando a força do poema sobre ela.
Perguntas em Aberto
A análise de Tóibín sobre Thom Gunn levanta questões sobre a natureza da memória, da perda e da arte em tempos de crise. A "eloquência reticente" de Gunn é uma resposta a um mundo que parecia desmoronar, uma tentativa de impor ordem e significado a um caos de sofrimento. A questão que permanece é como essa abordagem, que prioriza a forma e a contenção sobre a expressão efusiva, ressoa em diferentes contextos culturais e temporais. A precisão e a sobriedade com que Gunn abordou a mortalidade, especialmente em relação à AIDS, oferecem um modelo de como a poesia pode confrontar as realidades mais sombrias sem sucumbir ao desespero ou à banalização.
Em última análise, a obra de Thom Gunn, vista através das lentes de Colm Tóibín, não oferece respostas fáceis, mas sim um testemunho da capacidade humana de encontrar beleza e significado mesmo nas circunstâncias mais desoladoras. A elegância contida de seus versos convida à reflexão sobre a condição humana, a fragilidade do corpo e a força duradoura da linguagem para dar forma à nossa experiência mais profunda de dor e perda.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Lit Hub





