O perfume sutil de incenso paira no ar, misturando-se ao cheiro característico de papel de alta qualidade. Em uma esquina de Dover Street Market, em Londres, pilares arquitetônicos se transformam em telas, emoldurando imagens em preto e branco de uma era passada. São capas e páginas da revista 'Six', a publicação cult da COMME des GARÇONS, que ressurgiu das cinzas 35 anos após sua última edição. A iniciativa, capitaneada por Rei Kawakubo, não é apenas um resgate nostálgico, mas uma reafirmação do seu conceito de moda como arte, um mistério a ser desvendado.
Originalmente lançada em 1988, 'Six' durou apenas oito edições, encerrando sua trajetória em 1991. Contudo, seu impacto na cultura visual, na moda e na arte transcendeu seu tempo. Concebida como um look book conceitual, a publicação bianual ia além das tendências de vestuário, explorando os reinos do design, cinema, arquitetura e fotografia. Nomes como Salvador Dalí, Robert Frank, Jean-Paul Gaultier, Peter Lindbergh, Issey Miyake e Yohji Yamamoto figuraram entre seus colaboradores. A própria Kawakubo declarou em uma ocasião: “A alta moda tem que ter um mistério. Este é o próximo passo: a representação visual da coleção, puramente para a imagem.” A maioria de suas páginas, de fato, apresentava pouquíssimo ou nenhum vestuário da COMME des GARÇONS, priorizando a expressão artística e a atmosfera.
O Sexto Sentido da Moda
A edição mais recente, a primeira em mais de três décadas, reúne seis capas de arquivo e páginas selecionadas, dialogando com trabalhos de criadores contemporâneos. Essa curadoria, sob o olhar atento de Kawakubo, busca capturar o espírito indescritível de 'Six'. Adrian Joffe, presidente da COMME des GARÇONS International, descreve a revista como um mailer exclusivo, distribuído a clientes selecionados nas cidades onde as instalações foram montadas. Essa abordagem discreta e direcionada reforça a reputação da marca por seu branding vanguardista e enigmático. A própria primeira edição da revista já antecipava sua natureza: “Six é o sexto sentido”, proclamava. “É o sentido do surreal. Embora o sexto sentido seja impossível de descrever, ‘instinto’ pode ser um aspecto desse sentido.”
Um Legado de Mistério e Arte
O retorno de 'Six' se manifesta de diversas formas. Além da publicação impressa, instalações arquitetônicas em Tóquio, Paris e Londres recriam a atmosfera da revista, cobrindo espaços com imagens ampliadas de edições antigas. Em Aoyama, a loja da COMME des GARÇONS e o pátio externo da Dover Street Market em Paris ganharam uma nova roupagem visual. Em Londres, uma vitrine e pilares internos exibem a arte que define 'Six'. Paralelamente, uma coleção limitada de 12 camisetas, cada uma estampada com obras icônicas da revista, está disponível online e nas lojas da Dover Street Market, oferecendo um pedaço tangível do legado da publicação.
A Vanguarda como Norma
Essa iniciativa da COMME des GARÇONS não é um ato isolado, mas um reflexo de uma filosofia de marca que sempre desafiou as convenções. Em um mercado saturado de comunicação direta e apelo comercial explícito, 'Six' representa um contraponto. A marca opta por cultivar o mistério, a arte e a interpretação. Ao reviver 'Six', Kawakubo não apenas celebra seu passado, mas também convida o público a refletir sobre o papel da moda como forma de expressão artística e cultural, um veículo para um “sexto sentido” que transcende o vestível.
Reflexos no Ecossistema Brasileiro
Embora 'Six' seja um fenômeno intrinsecamente ligado à estética e ao mercado de luxo japonês e internacional, seu legado encontra paralelos no Brasil. A busca por autenticidade e a valorização da arte como diferencial competitivo têm crescido no cenário da moda nacional. Marcas que apostam em narrativas conceituais e em colaborações artísticas, mesmo que em menor escala, ecoam o espírito de 'Six'. A possibilidade de o público brasileiro acessar essa nova fase da revista e da coleção, seja online ou através de futuras iniciativas, abre uma janela para a influência contínua da vanguarda na moda global e, por extensão, no mercado local.
Perguntas que Permanecem
O que o renascimento de 'Six' revela sobre a atual busca por profundidade e mistério na indústria da moda, frequentemente dominada pela velocidade e pelo efêmero? Será que essa abordagem mais conceitual e menos comercial pode inspirar novas formas de engajamento com o consumidor, para além das tendências passageiras? A longevidade dessa estratégia, que prioriza a arte sobre o produto imediato, ainda se sustenta em um mercado cada vez mais acelerado e voltado para o consumo rápido?
A volta da revista 'Six' é um convite à contemplação, um lembrete de que a moda, em sua essência, pode ser tanto um reflexo do nosso tempo quanto um portal para o insólito e o sublime. A COMME des GARÇONS, com sua maestria em desconstruir e reconstruir, nos oferece mais uma vez a chance de experimentar essa dualidade.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Hypebeast





