O centro de gravidade do críquete global está se deslocando de forma decisiva. O eixo histórico, que por mais de um século conectou a Inglaterra, berço do esporte, e a Austrália, sua maior potência em títulos, está sendo suplantado pela força econômica e cultural da Índia. Sinais dessa inversão são cada vez mais explícitos: a liga australiana Big Bash League planeja abrir sua temporada 2026-2027 em Chennai, e investidores indianos já adquirem fatias de times ingleses.
O fenômeno tem um motor principal: a Indian Premier League (IPL). Lançada em 2008, a liga de franquias no estilo americano se tornou o torneio mais dominante e lucrativo do críquete mundial. Segundo uma reportagem do site Front Office Sports, que cita uma avaliação do banco Houlihan Lokey, o negócio da IPL já alcança US$ 20,6 bilhões, com um valor por partida que fica atrás apenas da NFL. A leitura é que não se trata de uma simples mudança de guarda esportiva, mas de uma reconfiguração geopolítica e comercial impulsionada por capital e uma audiência insaciável.
O efeito IPL
A força da IPL reside em sua capacidade de atrair capital privado e, consequentemente, os melhores talentos do mundo. A liga gerou bilhões de dólares em investimentos de conglomerados como o Aditya Birla Group, que tem o Blackstone como um de seus backers. Esse influxo de capital transformou o mercado indiano no mais atrativo do planeta, oferecendo aos jogadores salários e oportunidades que superam as das seleções nacionais.
A nova realidade ficou evidente quando Jofra Archer, um dos principais jogadores da Inglaterra, desfalcou sua seleção para disputar os playoffs da IPL pelo Rajasthan Royals. O capitão inglês, à época, defendeu a ausência, reconhecendo que “o cenário do críquete mudou”. A prioridade do clube sobre a nação, algo comum no futebol, agora se consolida no críquete, com a Índia no comando da agenda.
A inversão do poder
A ascensão indiana colocou a antiga aristocracia do críquete em uma posição reativa. A Cricket Australia, entidade que comanda o esporte no país, já considera realizar na Índia uma partida do The Ashes, a mais antiga e prestigiada série de confrontos do esporte, disputada entre Austrália e Inglaterra desde o século 19. A lógica é simples: seguir o dinheiro e a audiência.
Na Inglaterra, a mudança é ainda mais estrutural. Em 2025, a liga The Hundred vendeu participações em suas franquias para investidores indianos, injetando mais de US$ 670 milhões no críquete inglês. O resultado foi o rebranding de times tradicionais, como o Oval Invincibles, renomeado para MI London após investimento dos donos do Mumbai Indians, da IPL. A analogia feita na reportagem é poderosa: seria como se a NFL vendesse fatias de seus times para um conglomerado estrangeiro e sediasse o Super Bowl fora dos EUA.
O poder indiano não se restringe às suas fronteiras. A diáspora global garante que qualquer jogo da seleção indiana no exterior quebre recordes de público, como o registrado na Austrália em 2024. Enquanto isso, a federação inglesa projeta prejuízos para anos em que não recebe a Índia. O império do críquete não apenas contra-atacou; ele comprou o controle do jogo.
Source · Front Office Sports





