O colapso da indústria de arenque no Mar do Norte, ocorrido no início da década de 1970, parecia selar o destino de declínio para as comunidades costeiras da Noruega. Em vez de sucumbir à estagnação econômica, a região em torno de Ålesund iniciou uma transformação radical. O que antes era uma economia baseada puramente na extração pesqueira converteu-se em um dos ecossistemas marítimos mais sofisticados do mundo, comparado por analistas a um 'Silicon Valley' do setor naval.

Hoje, quase 200 empresas operam na região, empregando mais de 15.000 pessoas e gerando receitas anuais próximas a 85 bilhões de coroas norueguesas. Esse polo concentra desde estaleiros e fabricantes de equipamentos até desenvolvedores de software e startups de robótica, criando um ciclo contínuo de inovação que mantém a competitividade norueguesa em escala global, segundo reportagem da Forbes España.

A resiliência como motor de inovação

O sucesso da região não é fruto de uma única descoberta, mas de uma mentalidade adaptativa forjada pela necessidade. Quando os cardumes desapareceram, a necessidade de buscar peixes em águas mais distantes e perigosas forçou os pescadores a investirem em embarcações mais seguras, robustas e tecnologicamente avançadas. Esse imperativo de sobrevivência criou uma cultura de reinvestimento constante.

Empresas familiares, como a Havila Holdings, exemplificam essa trajetória. Ao migrar o capital acumulado na pesca para o transporte offshore e o turismo, essas organizações preservaram o conhecimento técnico local enquanto diversificavam suas fontes de receita. Essa transição, iniciada há mais de duas décadas, permitiu que a região se antecipasse ao declínio das indústrias de petróleo e gás, preparando-se para o mercado de energia renovável.

O mecanismo de adaptação tecnológica

O diferencial competitivo desse cluster marítimo reside na capacidade de integrar automação e sistemas digitais em navios altamente especializados. Embarcações que antes serviam apenas para a pesca agora são projetadas para operações complexas de pesquisa, apoio a parques eólicos marinhos e exploração subaquática. A tecnologia de propulsão e a eficiência energética tornaram-se o foco central dos projetos.

Um exemplo claro é o uso de sistemas de propulsão híbridos e magnéticos, que reduzem drasticamente o consumo de combustível. A leitura precoce das tendências de mercado, como a ascensão da eólica offshore, permitiu que empresas locais se posicionassem como fornecedoras essenciais antes mesmo que a demanda atingisse seu pico. A eficiência, mais do que a escolha de um combustível específico, tornou-se a constante estratégica.

Stakeholders e a economia oceânica

O impacto desse ecossistema transcende a fronteira norueguesa, influenciando toda a economia oceânica mundial. Governos e investidores observam a região como um modelo de transição industrial. No entanto, o desafio permanece em reter talentos e capitais diante de políticas fiscais que, segundo líderes locais, têm incentivado a saída de empreendedores para jurisdições com cargas tributárias menores.

Para o ecossistema brasileiro, que possui uma vasta costa e potencial no setor de energia offshore, a experiência norueguesa oferece lições sobre a importância de integrar instituições de pesquisa, indústria e capital privado em um mesmo território. A cooperação entre esses atores é o que permite a escala necessária para competir em projetos de infraestrutura oceânica de grande porte.

Perspectivas e incertezas futuras

O futuro da região depende da capacidade de manter o fluxo de talentos e de adaptar suas tecnologias às exigências de sustentabilidade cada vez mais rígidas. A transição energética, embora vista como uma oportunidade, exige investimentos contínuos em P&D para que a Noruega não perca sua liderança tecnológica para concorrentes emergentes.

A economia oceânica global tem projeções de dobrar seu valor até 2030, mas o sucesso nesse cenário exigirá mais do que infraestrutura física. A pergunta que permanece é se o modelo de sucesso local, fortemente ancorado em empresas familiares, conseguirá escalar frente à pressão de mercados globais mais agressivos e à volatilidade das políticas energéticas internacionais.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España