Um fundo de índice (ETF) negociado na B3, que replica o S&P 500, entregou um retorno 40% superior ao do próprio índice americano em dólares ao longo da última década. A análise, feita por Leonardo Vasques, gestor da XP Asset Management, refere-se ao SPXU11, um produto que combina a variação das maiores empresas dos EUA com a exposição à taxa de câmbio.

O resultado extraordinário não vem de uma gestão ativa genial, mas de uma mecânica estrutural: o ETF não possui proteção cambial. Para o investidor brasileiro, cuja moeda base é o real, a forte desvalorização da moeda local frente ao dólar no período funcionou como um potente multiplicador de ganhos, somando-se à performance do índice acionário. A tese aqui é que a sofisticação do mercado local está permitindo ao varejo acessar estratégias que antes eram restritas.

O dólar como fator de retorno

O desempenho do SPXU11 ilustra uma escolha estratégica fundamental para quem investe no exterior a partir do Brasil: com ou sem hedge cambial? Enquanto um ETF como o USPXH11 oferece o S&P 500 com proteção contra a oscilação do dólar, o SPXU11 deixa o investidor exposto. Na última década, essa exposição se provou extremamente lucrativa.

Montar essa posição "casada" — o índice mais a moeda — de forma independente é complexo para a pessoa física, como aponta Vasques. O ETF, portanto, democratiza o acesso a uma tese macroeconômica. O ganho superior não é uma anomalia, mas o reflexo direto da trajetória do câmbio, um fator de risco que, neste caso, se converteu em retorno adicional expressivo.

A maré da gestão passiva

O caso do SPXU11 também se insere na discussão global sobre a ascensão da gestão passiva. O próprio gestor da XP admite a dificuldade de competir com gigantes como Vanguard ou BlackRock na gestão de índices. Dados do estudo SPIVA, da S&P, reforçam o ponto: no longo prazo, apenas 10% a 20% dos gestores de fundos ativos no Brasil conseguem superar seus benchmarks.

A migração de recursos para os ETFs, segundo Vasques, vem justamente do capital que estava alocado em fundos de gestão ativa que não entregavam performance superior, mas cobravam taxas elevadas. A tendência, como já se observa nos EUA, é que os fundos de índice ocupem uma fatia cada vez maior do mercado, à medida que os investidores buscam eficiência e custos menores.

A sofisticação do mercado não para na simples replicação de índices. A chegada de produtos mais complexos, como ETFs com opções embutidas, sinaliza um futuro onde o investidor de varejo terá um arsenal cada vez mais amplo para montar suas próprias teses, combinando exposição a mercados, moedas e volatilidade diretamente na bolsa brasileira.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney