A janela de ofertas públicas iniciais (IPOs) de 2026, que caminha em ritmo contido com apenas três aberturas de capital até o momento, encontrou na Compass (PASS3) um ponto de atenção para o mercado de capitais brasileiro. Controlada pela Cosan, a companhia levantou R$ 3,2 bilhões e rapidamente se tornou foco de cobertura por parte de instituições como Itaú BBA, BTG Pactual, Citi e Bradesco BBI, que iniciaram a análise do ativo com recomendação de compra.
O otimismo dos analistas, que projetam potenciais de valorização superiores a 50% em alguns cenários, fundamenta-se no perfil de compounder da empresa. A tese central é que a Compass combina a previsibilidade de fluxos de caixa advindos de concessões reguladas com a capacidade de expansão acelerada de sua unidade de marketing e serviços, a Edge. Para o investidor, a promessa é de um ativo com baixa volatilidade e proteção inflacionária, ingredientes que buscam atrair o capital institucional em um cenário de juros ainda desafiadores.
O papel da infraestrutura na tese de valor
A Compass opera uma malha de 28 mil quilômetros de dutos, atendendo 3,1 milhões de clientes nas regiões Sul e Sudeste. O ativo central, a Comgás, mantém presença em 177 municípios paulistas, servindo como a âncora de estabilidade da tese de investimento. Além da operação paulista, o portfólio inclui participações estratégicas em distribuidoras como Sulgás, Compagás e Necta, consolidando um domínio geográfico que, segundo o BTG, oferece o tipo de previsibilidade operacional que o mercado classifica como "tediosa, mas boa".
Essa estrutura de concessões é o que permite à empresa sustentar uma alavancagem considerada confortável para o setor, viabilizando a política de dividendos. A expectativa é que a companhia atue como um gerador consistente de caixa, utilizando sua infraestrutura para garantir que a distribuição de proventos não comprometa o balanço. A solidez operacional, portanto, serve como o lastro necessário para que o mercado precifique o ativo não apenas como uma utilidade pública, mas como um gerador de valor de longo prazo.
Edge e a estratégia de crescimento
Se a distribuição de gás fornece a base, a unidade Edge representa o motor de crescimento da Compass. A plataforma integra a comercialização de gás natural à operação de infraestrutura estratégica, como o terminal de regaseificação TRSP, em Santos, e a unidade de biometano OneBio, em Paulínia. O diferencial competitivo reside na capacidade de otimizar o portfólio em um mercado brasileiro de gás que passa por um processo gradual de liberalização.
Os números da Edge reforçam essa visão, com um Ebitda de R$ 653 milhões em 2025 e um volume comercializado que saltou 63% em relação ao ano anterior. A estratégia de expandir para 22 milhões de metros cúbicos diários até 2030, atendendo desde indústrias até usinas térmicas, coloca a empresa em uma posição privilegiada para capturar a demanda por soluções energéticas com menor emissão de carbono, diversificando as fontes de suprimento e aumentando a flexibilidade comercial.
Implicações para o investidor e o mercado
A combinação de fluxos regulados e crescimento orgânico resulta em múltiplos que os bancos consideram descontados. Com a ação negociando a cerca de 5,2 vezes o EV/Ebitda projetado para 2026 segundo o Citi, a Compass apresenta um desconto que chega a 35% em relação aos concorrentes diretos. Esse cenário de precificação atrativa, aliado a um dividend yield estimado em 9% para o biênio 2027-2028, desenha um perfil de risco-retorno que poucos ativos no mercado atual conseguem oferecer.
Contudo, o sucesso dessa estratégia está condicionado à execução operacional. A assinatura de novos contratos, especialmente com o setor industrial e usinas térmicas, é fundamental para reduzir incertezas sobre a expansão dos volumes. Além disso, a conclusão da segunda fase do terminal de regaseificação é um marco que os analistas monitoram de perto para validar a capacidade de entrega da companhia nos próximos anos.
O que observar daqui para frente
A trajetória da Compass nos próximos trimestres será um teste para a resiliência das teses de distribuição de dividendos em um ambiente de mercado ainda cauteloso. A capacidade da diretoria em manter a disciplina de capital enquanto expande a Edge será o principal indicador de que a empresa pode, de fato, entregar os retornos projetados pelos bancos.
O mercado aguarda a evolução dos contratos de longo prazo e a performance da unidade de biometano como provas de conceito. Se a companhia conseguir navegar a volatilidade do setor energético brasileiro mantendo a previsibilidade do fluxo de caixa, a Compass tem o potencial de se estabelecer como uma referência de alocação de capital na bolsa nacional.
A consolidação da Compass como um ativo de referência depende da harmonia entre a operação regulada e a expansão comercial, um equilíbrio que definirá sua atratividade perante os investidores de longo prazo.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Money Times





