O sol de junho em Logroño, na região de La Rioja, costuma iluminar as pedras seculares de suas praças com uma precisão quase geométrica. Contudo, entre os dias 18 e 23 de junho de 2026, essa geometria será desafiada por 24 intervenções urbanas que pretendem transformar a cidade em um vasto laboratório a céu aberto. O festival Concéntrico, já consolidado como um dos encontros mais provocativos do design contemporâneo, retorna não apenas como uma mostra de arquitetura, mas como uma interrupção necessária no cotidiano de seus habitantes. Ao espalhar instalações por pontes, terrenos baldios e esquinas esquecidas, o evento convoca o público a repensar a funcionalidade do que chamamos de espaço comum.

A arquitetura como ritual de celebração

A edição de 2026 marca uma mudança de tom, afastando-se da contemplação estática para abraçar práticas performativas e coletivas. Nomes de peso da cena internacional, como o arquiteto chileno Smiljan Radić e o coletivo alemão raumlabor, propõem estruturas que funcionam menos como objetos de design e mais como cenários para a vida pública. A ideia central é que a arquitetura deve operar como um ritual de celebração, onde o público não é apenas espectador, mas parte integrante da forma construída. Ao integrar experiências sonoras e projetos de acessibilidade, o festival desafia os limites entre a infraestrutura urbana e a expressão artística, sugerindo que a cidade é um organismo em constante negociação.

Ecologias urbanas e a memória dos materiais

Sob o eixo temático das "Ecologias Urbanas", o evento levanta questões urgentes sobre o ciclo de vida dos materiais e o reaproveitamento de recursos no ambiente construído. Em um mundo onde a construção civil é frequentemente associada ao desperdício, as intervenções de figuras como Matilde Cassani e os estúdios AAU Anastas demonstram que o efêmero pode carregar uma carga ética profunda. O uso de materiais locais e técnicas vernaculares, reinterpretadas sob uma ótica experimental, cria um diálogo entre a história de Logroño e as demandas climáticas do século XXI. É uma arquitetura que reconhece sua própria transitoriedade, aceitando que o valor de um espaço pode residir na experiência compartilhada durante uma semana, e não na permanência de sua estrutura.

Identidade e a ficção do espaço público

O pilar de "Identidade e Ficção" convida os criadores a explorarem as narrativas que sustentam a vida urbana, transformando lugares sem identidade aparente em pontos de encontro significativos. Ao ocupar terrenos vazios e espaços residuais, os arquitetos convidados não tentam resolver problemas urbanísticos de forma definitiva, mas sim expor as possibilidades latentes que residem na negligência. Sahra Hersi e outros participantes exploram como a inclusão social pode ser mediada pelo design, utilizando a arquitetura como uma ferramenta para democratizar o acesso ao lazer e à cultura. O festival sugere que, ao alterar a percepção de um lugar, alteramos também a forma como os cidadãos se apropriam de sua própria cidade.

O legado do efêmero na cidade perene

O que permanece, afinal, quando as estruturas são desmontadas ao final de junho? A resposta talvez não esteja nas fotos de arquitetura ou nos registros em vídeo, mas na memória coletiva de quem atravessou uma ponte transformada ou ocupou uma praça antes deserta. O Concéntrico não busca deixar monumentos, mas sim sementes de uma nova forma de habitar o mundo, onde a flexibilidade é a norma e o espaço público é um bem infinitamente maleável. Ao observarmos a interação entre a performance humana e a intervenção física, somos forçados a perguntar se não deveríamos tratar nossas cidades, todos os dias, com a mesma audácia criativa que Logroño ensaia durante esses seis dias. O festival termina, mas a pergunta sobre o que constitui o "lugar" permanece em aberto, esperando pela próxima intervenção.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · ArchDaily