A conectividade aérea global enfrenta um impasse estrutural. Embora o fluxo de passageiros tenha superado os volumes registrados antes da pandemia, a malha de rotas não acompanhou esse ritmo de crescimento. Segundo dados da Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA), o número de rotas atingiu 68.972 em 2025, permanecendo abaixo do pico de 70.174 registrado no período entre 2015 e 2019.

Este cenário de estagnação, segundo a IATA, é agravado por uma combinação de falhas na cadeia de suprimentos — que atrasam a entrega de novas aeronaves — e um ambiente regulatório cada vez mais hostil. A análise da associação indica que, enquanto as companhias buscam eficiência operacional para atender à demanda reprimida, políticas públicas em diversas regiões têm atuado como entraves diretos à expansão da conectividade.

O peso da regulação excessiva

A regulação do setor aéreo tem se tornado, na visão da IATA, um obstáculo autoinfligido. Na União Europeia, reformas em direitos dos passageiros, como o regulamento EU261, são criticadas por não endereçarem gargalos operacionais críticos, como o Controle de Tráfego Aéreo. A IATA argumenta que a rigidez das regras atuais incentiva o cancelamento de voos, elevando custos que já somam bilhões de euros anualmente.

O debate sobre compensações por atrasos ilustra esse descompasso. A resistência de órgãos parlamentares em flexibilizar limites de tempo para compensação impede que as companhias operem com maior margem de manobra. Para o setor, manter normas desatualizadas ignora os desafios financeiros e operacionais reais, criando um ambiente onde a reforma, quando ocorre, acaba por onerar ainda mais a operação em vez de otimizá-la.

América Latina e o desafio da litigância

Na América Latina, o cenário é marcado por uma profusão de propostas legislativas que impactam a estrutura tarifária e operacional. A IATA monitora cerca de 150 iniciativas regulatórias na região, classificando a maioria como negativa para a aviação. O Brasil é citado como um caso emblemático de insegurança jurídica, funcionando como um verdadeiro paraíso para a litigância predatória em direitos dos passageiros.

A discrepância estatística é clara: no Brasil, a proporção de ações judiciais de pequeno valor é drasticamente superior à observada em mercados como o dos Estados Unidos. Esse fenômeno não apenas drena recursos das companhias, mas pressiona os custos operacionais, tornando inviável a manutenção de rotas menos rentáveis ou regionais que seriam fundamentais para a conectividade do país.

Impacto tributário e a economia das rotas

A carga tributária sobre o setor aéreo continua a ser um dos maiores desafios para a sustentabilidade de longo prazo. Com mais de US$ 60 bilhões arrecadados anualmente de companhias aéreas globalmente, a pressão fiscal reduz a margem para investimentos em novas rotas. Enquanto países como a Suécia optaram por abolir impostos sobre passageiros, outros mercados mantêm taxas que, segundo a IATA, são economicamente contraproducentes.

No Brasil, a preocupação central reside na possível aplicação de uma alíquota de IVA de 26,5% sobre passagens aéreas. A estimativa da IATA é que tal medida possa reduzir a demanda em até 30%. O risco, segundo a entidade, é o enfraquecimento da economia das rotas, forçando as empresas a remanejar aeronaves para mercados mais eficientes e menos onerosos, o que prejudica diretamente o turismo e o acesso regional.

Incertezas no horizonte

O futuro da conectividade aérea permanece atrelado à capacidade dos governos de equilibrarem a proteção ao consumidor com a viabilidade econômica das empresas. A falta de coordenação internacional e a insistência em modelos de regulação que ignoram a realidade operacional das companhias aéreas sugerem que a recuperação total da malha global ainda enfrentará obstáculos significativos nos próximos anos.

Observar como os mercados reagirão a novos regimes fiscais e se as reformas regulatórias conseguirão, de fato, simplificar a operação será determinante. A questão que permanece é se o setor conseguirá convencer os reguladores de que a conectividade aérea é um motor econômico que, se excessivamente tributado, pode ter seu crescimento interrompido de forma irreversível.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney