O conflito no Oriente Médio, que tem provocado oscilações severas nos preços do petróleo e incertezas nas rotas logísticas globais, impôs um novo desafio ao agronegócio brasileiro. Segundo Aurélio Pavinato, CEO da SLC Agrícola, a volatilidade geopolítica está encarecendo a cadeia de suprimentos de fertilizantes, insumo vital para a produtividade do campo. No entanto, o cenário não se resume a custos elevados; a alta das commodities agrícolas e o fortalecimento estrutural da demanda por biocombustíveis têm atuado como contrapesos significativos para a rentabilidade do setor.
Em entrevista ao programa Expert Talks da XP, Pavinato destacou que, embora a guerra gere incertezas sobre o patamar de preços do petróleo nos próximos anos, a mudança no cenário de preços das commodities compensa o aumento dos custos de produção. A SLC, que opera 830 mil hectares no Cerrado, adotou uma estratégia de antecipação na compra de insumos para garantir que o custo da próxima safra se mantenha controlado, mitigando os efeitos da dependência externa.
A vulnerabilidade estrutural dos fertilizantes
O Brasil enfrenta uma dependência histórica de insumos importados, adquirindo 95% dos fertilizantes que consome. Apesar de possuir reservas minerais, a extração local de fósforo e potássio permanece economicamente inviável frente aos custos competitivos de produtores como Rússia, Marrocos e Canadá. A produção de nitrogênio, por sua vez, esbarra na escassez de gás natural barato, essencial para o processo produtivo.
Essa fragilidade, exacerbada por tensões globais, coloca o custo da produção de alimentos sob pressão mundial. Contudo, a SLC tem conseguido navegar essa volatilidade através de um planejamento financeiro rigoroso. Ao antecipar a aquisição de fósforo antes do acirramento do conflito, a companhia posicionou-se para a safra 2026/27 com custos equalizados ou inferiores aos do ciclo anterior, demonstrando a importância da gestão de risco em mercados globais instáveis.
O efeito cascata do petróleo
Um dos desdobramentos mais notáveis desta crise é o impacto no mercado de fibras. O encarecimento do petróleo elevou o preço do poliéster, fibra sintética que compete diretamente com o algodão na indústria têxtil. Esse movimento forçou uma migração da demanda para a fibra natural, impulsionando os preços do algodão a patamares mais elevados. A incerteza logística, que leva compradores a formarem estoques de segurança, reforça essa demanda.
Paralelamente, a busca por alternativas ao petróleo volátil tem acelerado a adoção de biocombustíveis em mercados estratégicos, como Índia, Indonésia, Brasil e Estados Unidos. Esse fenômeno cria uma demanda estrutural de longo prazo para soja e milho, transformando a crise em uma oportunidade para o setor sucroenergético e de grãos nacional.
Implicações para o ecossistema agrícola
Para os produtores brasileiros, o cenário exige uma gestão financeira mais sofisticada, onde a venda antecipada de commodities torna-se uma ferramenta de proteção contra a volatilidade dos custos. O aumento no preço dos alimentos, contudo, permanece como um risco latente para o consumidor final, que acaba absorvendo parte da elevação dos custos globais de produção.
Para o governo e reguladores, a questão da dependência de fertilizantes volta ao centro do debate sobre segurança alimentar e soberania produtiva. A necessidade de investimentos em infraestrutura e em fontes alternativas de energia para a indústria de insumos torna-se uma prioridade estratégica para reduzir a exposição do agronegócio nacional às instabilidades geopolíticas externas.
Perspectivas e incertezas
O que permanece incerto é a duração e a intensidade do conflito no Oriente Médio, fatores que continuarão a ditar o ritmo da volatilidade nos preços de energia e insumos agrícolas. Observar como a demanda global por biocombustíveis evoluirá nos próximos anos será crucial para entender a sustentabilidade desse novo patamar de preços das commodities.
A resiliência das margens operacionais das grandes empresas do setor dependerá da capacidade de manter estratégias de hedge eficientes e de adaptar-se a um mercado global cada vez mais fragmentado. O campo brasileiro, embora robusto, segue atento aos sinais que vêm de fora das fazendas.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney — Onde Investir





