O Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp) decidiu, no início da semana, manter o tombamento do edifício da Escola Panamericana de Arte e Design, localizado no bairro de Higienópolis. A deliberação encerra um ciclo de incertezas sobre o destino da construção, projetada pelo arquiteto Siegbert Zanettini e inaugurada em 1998, que enfrentava riscos de demolição por parte de sua proprietária, a Keeva Investimentos e Participações.

A manutenção do status de proteção é vista como um marco para a preservação da arquitetura contemporânea na capital paulista. A disputa ganhou contornos de mobilização popular, unindo estudantes, arquitetos e coletivos de bairro em uma campanha pública para evitar que o edifício sofresse o mesmo destino da sede original da escola, na Rua Groenlândia, demolida em 2021.

O valor da arquitetura high-tech

O edifício da Avenida Angélica é amplamente reconhecido por especialistas como um exemplar significativo da arquitetura em aço e da estética high-tech em São Paulo. Com uma estrutura que privilegia o uso de vidro e metais expostos, o projeto de Zanettini é frequentemente comparado, em termos de linguagem, a ícones globais como o Centre Pompidou, em Paris. A construção não é apenas um espaço funcional, mas uma expressão técnica que integra precisão de engenharia e desenho arquitetônico.

Para o arquiteto Siegbert Zanettini, a importância do prédio reside na sua proposta de construção sustentável e limpa. Diferente de estruturas convencionais, o uso intensivo de aço permitiu uma integração fluida entre os ateliês e salas de aula, refletindo a própria metodologia de ensino das artes. O tombamento reconhece essas características como elementos fundamentais da identidade urbana paulistana do final do século 20.

Mecanismos de resistência e pressão

O processo de tombamento foi impulsionado pela Associação de Proprietários, Protetores e Usuários de Imóveis Tombados (Apito) e contou com o suporte estratégico de entidades como a Docomomo Brasil e a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. A mobilização escalou quando o Coletivo Pró-Higienópolis organizou eventos como o "desenhaço", que reuniu cidadãos para registrar visualmente o valor afetivo e cultural do edifício.

Do outro lado, a Keeva Investimentos contestou a proteção, argumentando que o projeto não possuía relevância cultural excepcional. A resistência da proprietária, que herdou o imóvel após a morte do fundador Enrique Lipszyc, colidiu com a visão dos órgãos de preservação. A intervenção de figuras públicas e a pressão organizada foram decisivas para que o Conpresp ratificasse a importância de proteger exemplares da arquitetura pós-moderna na cidade.

Implicações para o patrimônio urbano

A vitória do movimento de preservação sinaliza uma mudança na percepção do valor histórico das construções recentes. Em uma metrópole marcada pela renovação constante e pela pressão imobiliária, o caso da Escola Panamericana reforça o debate sobre o que deve ser preservado. A participação da ESPM, que assumiu a gestão da escola em 2025, também trouxe um novo fôlego à causa, garantindo que o edifício continue a cumprir sua função educacional.

Para o ecossistema de arquitetura em São Paulo, o precedente é claro: o valor de um edifício não se restringe à sua antiguidade, mas à sua contribuição à linguagem urbana e à memória coletiva. O tombamento impõe limites ao desenvolvimento imobiliário que prioriza a demolição em detrimento da conservação de marcos contemporâneos.

Desafios para a preservação futura

Embora a decisão do Conpresp traga segurança imediata, o futuro da gestão de edifícios tombados com fins privados permanece um tema em aberto. A manutenção de estruturas que exigem cuidados específicos, como a edificação de Zanettini, demanda um diálogo constante entre o setor privado e os órgãos de proteção para garantir a viabilidade econômica sem comprometer a integridade arquitetônica.

O que se observa agora é a necessidade de criar mecanismos de incentivo que tornem a preservação um ativo, e não um ônus, para os proprietários. A trajetória da Escola Panamericana demonstra que a sociedade civil organizada desempenha um papel fundamental na definição da paisagem urbana, mas o desafio de equilibrar desenvolvimento e memória urbana continuará a exigir vigilância e debate técnico.

A preservação da Escola Panamericana em Higienópolis sublinha a força da articulação entre a academia, os moradores e o poder público. Enquanto a cidade cresce, a decisão do Conpresp abre espaço para que novas gerações de arquitetos e estudantes continuem a interagir com um dos marcos mais arrojados do design brasileiro das últimas décadas, garantindo que a inovação do passado não seja esquecida.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Metro Quadrado