O Conselho da Europa, por meio de seu Comitê da Convenção sobre Cibercrime (T-CY), divulgou um estudo abrangente que mapeia as complexas intersecções entre inteligência artificial (IA), cibercrime e a coleta de provas eletrônicas. Intitulado "Cibercrime, provas eletrônicas e inteligência artificial: estudo de mapeamento", o documento compila insights e experiências práticas de promotores e especialistas de mais de 25 nações, visando subsidiar o desenvolvimento de respostas jurídicas e operacionais mais eficazes em um cenário de rápida evolução tecnológica. A aprovação do estudo antecede a Conferência Octopus 2026, um importante fórum internacional dedicado ao combate ao cibercrime e à cooperação transfronteiriça.

Novos Vetores de Ataque e a Complexidade da Responsabilização

O levantamento identifica uma série de novas ameaças e ataques direcionados a sistemas de IA. Entre os riscos mais proeminentes estão o "envenenamento de dados", onde dados de treinamento são corrompidos para manipular o comportamento do modelo; a injeção de comandos maliciosos para alterar o funcionamento do sistema; o roubo de modelos de IA, que representam propriedade intelectual valiosa; e o uso da própria IA para gerar códigos maliciosos, ransomware e, de forma particularmente preocupante, material de abuso sexual infantil. Essas vulnerabilidades expandem significativamente a superfície de ataque, impondo desafios inéditos às equipes de segurança cibernética, autoridades policiais e ao sistema judiciário. A proteção de redes e bancos de dados tradicionais agora precisa ser complementada pela garantia da integridade dos dados de treinamento, da segurança dos modelos de IA e dos mecanismos de controle que regem seu comportamento.

A crescente autonomia de sistemas de IA, especialmente os agentes autônomos capazes de executar tarefas e tomar decisões dentro de seus parâmetros operacionais, levanta questões espinhosas sobre a atribuição de responsabilidade penal. Quando uma ação ilícita não é diretamente instruída ou sequer prevista pelo operador humano, estabelecer a culpa torna-se um desafio considerável. O estudo se debruça sobre a intrincada relação entre a conduta humana, o funcionamento da tecnologia e os mecanismos de supervisão, buscando delinear como esses elementos interagem na ocorrência de um crime digital.

IA como Ferramenta e a Necessidade de Governança

O estudo confirma que os sistemas de IA se encaixam na definição de "sistema informático" prevista na Convenção de Budapeste, o principal tratado internacional para cooperação no combate ao cibercrime. Ao mesmo tempo em que detalha os riscos, o documento reconhece o potencial da IA como uma ferramenta valiosa para auxiliar na prevenção de crimes, na investigação digital e na administração da justiça. A capacidade da tecnologia de analisar vastos volumes de dados e identificar padrões suspeitos pode otimizar processos investigativos, desde que seu uso seja acompanhado por controles rigorosos e salvaguardas adequadas. O Conselho da Europa enfatiza a importância crucial da supervisão humana contínua, da transparência nos processos decisórios da IA e da responsabilização clara. A adoção de tais medidas é fundamental para proteger os direitos humanos e o Estado de Direito em um ambiente cada vez mais digitalizado.

Para empresas e organizações públicas, essas considerações reforçam a urgência de integrar a segurança da IA aos seus quadros de governança, gestão de riscos e conformidade. O emprego de sistemas autônomos demanda a implementação de mecanismos robustos para o registro de ações, o monitoramento de decisões, a identificação de comportamentos anômalos e a definição de responsabilidades claras ao longo de todo o ciclo de vida da tecnologia.

Cooperação Internacional e o Futuro da Investigação Digital

Como parte de suas recomendações, o estudo propõe o fortalecimento da cooperação com empresas de IA, provedores de serviços e organizações da sociedade civil. O objetivo é desenvolver recursos práticos que auxiliem os profissionais que atuam na interseção entre IA, cibercrime e provas eletrônicas. Além disso, busca-se a articulação entre instrumentos internacionais relevantes, como a Convenção-Quadro do Conselho da Europa sobre Inteligência Artificial e Direitos Humanos, Democracia e Estado de Direito, e a Convenção para a Proteção das Crianças contra a Exploração e o Abuso Sexual. Essa iniciativa visa criar uma base comum para que diferentes jurisdições possam enfrentar ameaças que, por sua natureza, transcendem fronteiras nacionais. Em um cenário onde ataques digitais frequentemente envolvem infraestruturas distribuídas, serviços em nuvem e ferramentas de IA globalmente acessíveis, a colaboração entre autoridades e o setor de tecnologia torna-se indispensável para a preservação de evidências, a aceleração de investigações e a efetiva responsabilização dos envolvidos.

O estudo do Conselho da Europa não pretende encerrar o debate sobre os limites jurídicos da inteligência artificial, mas sim consolidar experiências e fornecer um roteiro para o desenvolvimento de respostas conjuntas a ameaças em constante transformação. A análise serve como um marco na compreensão dos desafios e oportunidades que a IA apresenta para a justiça e a segurança em nível global.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · TIInside