A história ensina que líderes, em momentos de grande incerteza, tendem a se preparar para o conflito que já passou. Um exemplo emblemático é a Linha Maginot, construída pela França nos anos 1930. Com suas fortificações extensas, ela representava uma defesa robusta para uma guerra estática, ideal para a Primeira Guerra Mundial. No entanto, em maio de 1940, a blitzkrieg alemã contornou a linha com facilidade, demonstrando a obsolescência da estratégia diante de táticas inovadoras. Essa tendência de "lutar a última guerra" parece se repetir no contexto da governança corporativa e da inteligência artificial (IA).

A Experiência como Fortaleza Obsoleta

Em tempos de turbulência, conselhos de administração têm optado por nomear diretores com histórico comprovado, especialmente ex-CEOs e executivos aposentados. Em 2026, CEOs atuais e antigos representaram 37% das nomeações, a maior fatia desde 2012. A lógica é de buscar segurança em quem "já viu de tudo". Contudo, essa ênfase excessiva na experiência passada pode se tornar uma "Linha Maginot" corporativa. Enquanto mais de 80% das empresas do S&P 500 já reconhecem a IA como um risco, menos de 3% de seus diretores possuem expertise declarada na área. O perigo reside em possuir defesas robustas contra ameaças antigas, enquanto as novas chegam por caminhos imprevistos.

Redefinindo a Experiência para a Era da IA

A experiência, como disse Oscar Wilde, é o nome que damos aos nossos erros. Ela é valiosa para evitar repetições de falhas passadas. No entanto, por definição, a experiência é um registro do que já aconteceu. Ela protege contra os erros da era anterior, não contra os desafios da próxima. A lição da Linha Maginot não é abandonar as defesas, mas não depender exclusivamente delas. No ambiente corporativo, conselheiros experientes são importantes, mas uma dependência excessiva pode obscurecer a visão sobre o impacto real da IA. A tecnologia não é apenas uma atualização de TI, mas um agente de transformação que redefine indústrias, estruturas organizacionais e a própria natureza do trabalho. Conselhos precisam de membros que percebam quando os desafios da IA surgem por rotas inesperadas.

A Recência como Chave para o Futuro

Em vez de focar apenas na idade, conselhos que buscam se adaptar à era da IA devem priorizar a "recência" da experiência. Isso significa buscar diretores que operam nas condições atuais, com as ferramentas e os desafios contemporâneos, e não aqueles que apenas traduzem o presente para o passado. Um exemplo é Matías Muchnick, cofundador e CEO da NotCo. Sua empresa, que utiliza IA para desenvolver alimentos à base de plantas, demonstrou a agilidade necessária quando o preço do cacau disparou em 2024. A Ferrero utilizou a IA da NotCo para encontrar substitutos, evidenciando o valor da tecnologia. Muchnick, percebendo que a IA se tornara mais valiosa que os produtos em si, reestruturou a empresa, vendendo operações e focando no desenvolvimento da tecnologia. Essa fluidez é difícil de adquirir secondhand e é exatamente o que falta em conselhos repletos de experiência tradicional.

Preparando-se para a Nova Guerra

A governança corporativa para a era da IA exige um equilíbrio entre a sabedoria da experiência e a agilidade da recência. Conselhos precisam questionar se seus membros estão equipados para antecipar e responder às disrupções trazidas pela inteligência artificial, ou se estão, inadvertidamente, construindo suas próprias Linhas Maginot. A busca por diretores que entendam as dinâmicas atuais, que estejam imersos nos desafios e nas oportunidades da IA, é crucial para garantir a resiliência e a relevância das empresas no futuro.

A verdadeira preparação não está em fortificar o passado, mas em navegar o presente com uma visão clara do futuro, antecipando as novas frentes de batalha.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fast Company