A maioria dos conselhos de administração ainda não percebe benefícios tangíveis derivados da inteligência artificial, conforme revela a pesquisa de 2026 do Center for Corporate Governance do IESE Business School. O levantamento indica que 55% dos conselheiros consideram que a tecnologia não está entregando resultados concretos para o core business de suas empresas, sinalizando um descompasso entre o entusiasmo do mercado e a execução corporativa.

Este cenário sugere que, embora a IA seja um tema recorrente, ela ainda não ocupa um lugar central na agenda estratégica das organizações. Apenas 15% dos conselhos discutem o assunto em todas as suas reuniões, enquanto 36% limitam o debate a uma única vez ao ano, demonstrando uma postura de observação em vez de uma liderança ativa na transformação digital.

A lacuna na governança da IA

A falta de envolvimento direto dos conselhos na governança da IA é um dos pontos mais críticos do estudo. Apenas 9% dos participantes classificam como alto o seu nível de participação na definição de uma rota estratégica para a tecnologia, enquanto 38% admitem que essa atuação é baixa. Esse distanciamento reflete uma dificuldade estrutural em traduzir o potencial da inteligência artificial em diretrizes operacionais claras.

A ausência de supervisão se estende a áreas vitais, como a orientação ao CEO, o desenvolvimento de talentos e a própria gestão da implementação da tecnologia. Quando os órgãos de governança falham em definir parâmetros claros, a adoção da tecnologia acaba fragmentada, perdendo a escala necessária para gerar impacto positivo no balanço final das companhias.

O dilema da resiliência geopolítica

Além da IA, o estudo destaca que os conselhos estão cada vez mais preocupados com riscos geopolíticos que afetam a resiliência das cadeias de suprimento. Cerca de 46% dos conselheiros apontam que tensões globais impactam diretamente a estabilidade operacional, com a baixa eficácia governamental e o protecionismo comercial surgindo como ameaças principais, citadas por 25% e 22% dos entrevistados, respectivamente.

Essa instabilidade força as empresas a repensarem suas estratégias de alocação de capital. O movimento atual mostra uma preferência clara pela regionalização, com 72% dos conselheiros defendendo a concentração de investimentos em suas próprias regiões geográficas, em vez de buscar a expansão global desmedida que caracterizou a década anterior.

Desafios para a eficácia do conselho

A eficácia dos órgãos de administração depende, segundo o levantamento, de pilares tradicionais que se mantêm inabaláveis: a colaboração entre o conselho e o CEO, a existência de tempo para debates estratégicos e a liderança do presidente do conselho. Esses fatores, citados por mais de 90% dos respondentes, indicam que a tecnologia não substitui a necessidade de uma dinâmica humana funcional.

Enquanto a sustentabilidade ganha força, sendo integrada ao modelo de negócio de 61% das empresas, a IA ainda luta para encontrar um espaço similar de maturidade. A transição de uma ferramenta de eficiência pontual para um ativo estratégico exige que os conselhos superem a inércia atual e assumam a responsabilidade pela governança dos algoritmos.

Perspectivas e incertezas

O que permanece incerto é se essa lentidão é uma prudência necessária ou um atraso competitivo que custará caro no longo prazo. A observação dos próximos ciclos de resultados será fundamental para entender se o ceticismo atual se converterá em uma abordagem mais pragmática ou em uma perda irreversível de relevância tecnológica frente a concorrentes mais ágeis.

O mercado aguarda para ver como as empresas reconciliarão a necessidade de resiliência geopolítica com a urgência de inovação digital. A capacidade de equilibrar esses dois vetores definirá quais organizações conseguirão extrair valor real da tecnologia nos próximos anos.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España