A proteção dos salários contra a inflação na Espanha apresenta um cenário de profundas desigualdades setoriais. Dados recentes do Ministério do Trabalho, compilados a partir de convenções coletivas registradas até setembro, indicam que apenas 39% de todos os trabalhadores cobertos por negociação coletiva possuem cláusulas de revisão salarial destinadas a compensar a perda de poder aquisitivo diante do aumento dos preços. Essa média, contudo, esconde realidades distintas que afetam milhões de espanhóis, com os trabalhadores da construção civil e da indústria desfrutando de uma segurança significativamente maior em comparação com aqueles dos setores de serviços e agricultura.

Proteção desigual por setor

O setor da construção lidera a lista de trabalhadores com garantias salariais, onde 71,9% dos empregados cobertos por convenção coletiva têm cláusulas de revisão. Logo em seguida, a indústria apresenta um índice de proteção de 70,2%. Esses números contrastam fortemente com os setores menos protegidos. Na agricultura, apenas 7,5% dos trabalhadores contam com esse tipo de salvaguarda em seus acordos. Já o setor de serviços, que emprega a maior parte da força de trabalho espanhola, apresenta um índice de 25%.

Até setembro, foram registrados 3.038 convenções coletivas, impactando mais de 9,3 milhões de trabalhadores. Dessas, apenas 906 convenções (29,8%) incluíam cláusulas de revisão salarial, com 641 delas prevendo efeitos retroativos. O total de trabalhadores beneficiados por essas cláusulas soma mais de 3,6 milhões. Embora o número de trabalhadores protegidos tenha aumentado em quase 18 pontos percentuais em comparação com dezembro de 2023 (21,08%), a maioria, seis em cada dez, ainda carece dessa proteção fundamental.

Mecanismos de negociação e defasagem salarial

A análise dos dados revela que a negociação coletiva é o principal canal para a inclusão dessas cláusulas. No setor de serviços, por exemplo, 1.724 convenções foram registradas, afetando mais de 6,3 milhões de trabalhadores. No entanto, apenas cerca de 1,6 milhão (25%) tinham cláusulas de revisão. Na agricultura, de 36 convenções que cobriam 122.997 trabalhadores, somente 9.265 tinham a garantia salarial. A indústria, com 1.204 convenções para quase 1,9 milhão de trabalhadores, viu mais de 1,3 milhão protegidos (70,2%).

Essa disparidade pode ter implicações significativas no poder de compra dos trabalhadores. Enquanto os salários médios pactuados em convenção em setembro subiram 3,05%, ligeiramente acima do mês anterior, ficaram quase 1,9 ponto percentual abaixo da taxa de inflação interanual de 4,9%. A construção registrou o maior aumento salarial médio (3,09%), seguida por serviços (3,06%) e indústria (2,99%). A agricultura, por sua vez, apresentou a menor elevação média (2,73%).

Implicações para o mercado e futuro da negociação

A defasagem entre os aumentos salariais e a inflação, combinada com a falta de cláusulas de revisão em muitos setores, sugere um potencial declínio no poder de compra para uma parcela significativa da força de trabalho espanhola. A situação se torna mais crítica para os trabalhadores de setores com menor poder de barganha ou menos representatividade sindical.

As organizações sindicais, como UGT e CCOO, têm proposto um novo Acordo para o Emprego e a Negociação Coletiva (AENC) que contemple uma subida salarial fixa de 4% anual nos próximos três anos, além de aumentos adicionais para salários abaixo da média nacional e um mecanismo de revisão em caso de desvio da inflação. A adoção dessas propostas seria crucial para mitigar a perda de poder aquisitivo e reduzir a desigualdade salarial observada entre os diferentes setores econômicos.

Perguntas em aberto

Resta saber se as negociações futuras conseguirão estender a proteção salarial a um número maior de trabalhadores, especialmente nos setores de serviços e agricultura, onde a cobertura é mais baixa. A capacidade dos sindicatos e empregadores de chegar a um acordo que contemple as demandas por aumentos salariais e mecanismos de ajuste inflacionário será determinante para o cenário econômico dos próximos anos.

A persistência dessa disparidade setorial pode gerar tensões sociais e econômicas, impactando o consumo e a estabilidade financeira de milhões de famílias espanholas. A forma como os próximos acordos coletivos serão negociados definirá se a Espanha conseguirá garantir um poder de compra mais equitativo para sua força de trabalho.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España