A crescente preocupação com o tempo excessivo gasto em smartphones e o fenômeno do "doomscrolling" — a navegação compulsiva por notícias negativas — tem levado a um movimento inesperado no mercado de tecnologia: o "bricking". Consumidores buscam ativamente formas de "emburrecer" seus dispositivos, retornando a uma interação mais controlada com a tecnologia. Pesquisas do Pew Research indicam que mais da metade dos adultos americanos (53%) sentem que passam tempo demais em seus telefones, com um em cada quatro admitindo uso "quase constante". Esses números são ainda mais alarmantes entre os jovens de 18 a 29 anos, onde 70% relatam uso excessivo e 42% se declaram "quase constantemente" conectados. Embora muitos tentem reduzir o tempo de tela, a eficácia dessas tentativas é limitada, com apenas um quarto dos que tentaram relatando sucesso significativo. A natureza viciante de aplicativos de redes sociais, projetados para manter os usuários em um ciclo de dopamina, torna a quebra desses hábitos um desafio considerável, impulsionando a busca por intervenções externas.

A ascensão do 'Brick'

Diante desse cenário, surge o Brick, um dispositivo cofundado por TJ Driver e Zach Nasgowitz em 2023. O Brick é um pequeno cubo de plástico cinza, com cerca de cinco centímetros de lado, que incorpora tecnologia NFC. Ele se conecta a um aplicativo no smartphone do usuário, permitindo que este selecione quais aplicativos deseja bloquear. Para ativar esses bloqueios, o usuário deve aproximar o telefone do dispositivo Brick. Da mesma forma, para desativar os bloqueios e acessar os aplicativos, é necessário interagir novamente com o Brick. Essa camada física adiciona uma barreira significativa à tentação de acessar aplicativos bloqueados, algo que as funcionalidades nativas dos smartphones, como o "Tempo de Uso" do iPhone, muitas vezes não conseguem impedir, pois podem ser facilmente contornadas.

Mecanismos de controle e DIY

O diferencial do Brick reside em tornar o processo de acesso a aplicativos viciantes mais tangível. Ao introduzir um passo físico adicional, o dispositivo força uma pausa e uma decisão consciente. A empresa afirma que, em uma pesquisa interna com mais de 3.500 clientes, 95% relataram sentir-se menos distraídos, 93% mais focados e 99% reportaram redução no tempo de tela. O dispositivo é comercializado por US$ 59. O sucesso do Brick inspirou uma onda de soluções "faça você mesmo" (DIY). Usuários criativos têm utilizado adesivos NFC, que custam menos de US$ 10, combinados com aplicativos gratuitos como o Foqos, para replicar a funcionalidade do Brick. Exemplos incluem a customização de pequenos objetos decorativos ou a criação de "pedras" com tags NFC encapsuladas em argila, demonstrando uma demanda por personalização estética e controle de custos. Essas iniciativas mostram que a busca por uma desconexão digital não se limita a produtos comerciais, mas também se manifesta em abordagens criativas e acessíveis.

Implicações e o futuro da relação com a tecnologia

O fenômeno do "bricking" e suas vertentes DIY apontam para uma mudança cultural na forma como as pessoas percebem e interagem com seus smartphones. Em vez de buscar dispositivos cada vez mais potentes e multifuncionais, há um desejo crescente por simplicidade e controle. Isso levanta questões sobre o design de tecnologia e a responsabilidade das empresas em criar produtos que não apenas engajem, mas também promovam o bem-estar digital. Para o mercado, isso pode significar uma oportunidade para inovações focadas em "desintoxicação digital" e ferramentas que ajudem os usuários a recuperar o controle sobre seu tempo e atenção. A tendência também pode influenciar o desenvolvimento de softwares e hardwares que priorizem a saúde mental e a produtividade consciente, afastando-se do modelo de engajamento constante.

Perguntas em aberto

Embora o "bricking" ofereça uma solução para o uso problemático de smartphones, ainda permanecem questões sobre sua escalabilidade e sustentabilidade a longo prazo. Será que essa tendência se consolidará como uma abordagem mainstream para o gerenciamento de tempo de tela, ou permanecerá um nicho para os mais disciplinados? A indústria de tecnologia responderá a essa demanda por simplicidade com novas soluções, ou continuará focada em aprimorar funcionalidades que, paradoxalmente, podem aumentar a dependência? A forma como esses dispositivos e métodos de controle evoluirão definirá o futuro da nossa relação com a tecnologia pessoal.

O movimento de "bricking" smartphones, impulsionado pela necessidade de combater o "doomscrolling" e o uso excessivo, reflete um desejo profundo por uma interação mais equilibrada com a tecnologia. Seja através de dispositivos dedicados como o Brick ou de soluções criativas "faça você mesmo", os consumidores buscam ativamente retomar o controle de seu tempo e atenção em um mundo cada vez mais digitalizado.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fast Company