A inteligência artificial (IA) promete redefinir indústrias inteiras, e o setor jurídico, conhecido por sua tradição e modelos de negócios estabelecidos, não é exceção. Grandes escritórios de advocacia, que construíram fortunas com base nas horas faturáveis de seus associados, agora enfrentam um dilema: como justificar seus honorários quando a tecnologia pode realizar tarefas em minutos que antes levavam horas? Rachel Proffitt, CEO do escritório Cooley, sediado em São Francisco e com profundas raízes no Vale do Silício, está na vanguarda dessa transformação. Sua missão é guiar a firma através de um cenário onde a IA não é apenas uma ferramenta de produtividade, mas um catalisador para a reestruturação completa do modelo de prestação de serviços jurídicos.
O Legado das Horas Faturáveis em Xeque
O modelo tradicional de "Big Law" baseia-se na contratação de jovens advogados talentosos, que dedicam longas horas a tarefas que são faturadas aos clientes. A eficiência e a expertise dos associados são medidas pelo tempo dedicado, e os clientes pagam por esse tempo, independentemente do resultado final. Proffitt, que ascendeu na carreira sob esse paradigma, agora questiona sua sustentabilidade. "Os clientes nunca ficaram animados com o fato de termos levado 82 horas para fazer algo. Eles não se importam", afirma Proffitt. "Eles apenas querem o resultado. Eles querem os resultados." Essa mudança de foco, de processo para resultado, é fundamental. A IA, ao acelerar a execução de tarefas como revisão de documentos, pesquisa jurídica e preparação de petições, força os escritórios a repensar não apenas o que cobram, mas também como formam e utilizam seus advogados juniores. A tecnologia está, de fato, começando a fazer parte do trabalho que antes era exclusivo de advogados, levantando questões sobre a necessidade de tantos associados e a forma como eles adquirem experiência prática.
Cooley: Da Origem Tecnológica à Liderança em IA
O Cooley não é um escritório qualquer. Fundado nos primórdios do Vale do Silício, cresceu em paralelo com a indústria de tecnologia, atendendo desde fabricantes de semicondutores até os mais proeminentes fundos de capital de risco. Essa proximidade com o ecossistema de inovação o posiciona de forma única para entender e adaptar-se às mudanças impulsionadas pela tecnologia. A receita bruta do escritório saltou de US$ 912 milhões em 2015 para US$ 2,4 bilhões no último ano fiscal, um testemunho de seu sucesso em acompanhar o crescimento de seus clientes. No entanto, a ironia é palpável: enquanto o Cooley e outros escritórios de ponta defendem gigantes da tecnologia em disputas bilionárias e auxiliam em suas ofertas públicas iniciais (IPOs) – como no caso de SpaceX, Anthropic e OpenAI –, essas mesmas empresas estão desenvolvendo as ferramentas que podem desmantelar o modelo de negócios do "Big Law". A estratégia de Proffitt envolve fazer com que o Cooley opere com a agilidade das startups que representa. Para isso, ela recrutou David Wang, ex-advogado e executivo de tecnologia jurídica, com o mandato de não apenas aumentar a produtividade dos advogados, mas de transformar a interação com os clientes.
Inovação e Relacionamento: O Novo Fronte Jurídico
Uma das iniciativas da Cooley é o desenvolvimento de ferramentas que permitem aos clientes, como fundadores de startups da Y Combinator, revisar contratos comuns sem a necessidade de consultar um advogado. Em parceria com a OpenAI, o escritório está aprimorando ferramentas para a preparação de documentação de empresas que abrem capital. Um projeto em andamento com o Google visa criar um agente de IA capaz de escanear documentos em busca de informações confidenciais antes de serem protocolados em tribunais, sugerindo redações para revisão pelos advogados. Essa abordagem, que pode parecer canibalizar as próprias horas faturáveis, é vista como um movimento defensivo e estratégico. O risco maior, segundo Proffitt, é perder a conexão com os clientes. À medida que equipes jurídicas internas e novas "lawtechs" nativas de IA assumem tarefas básicas, escritórios como o Cooley correm o risco de serem preteridos para trabalhos maiores e mais complexos. "Quando você precisa da próxima coisa importante, aquela que você não confia em colocar na máquina", explica Proffitt, "como eu garanto que você queira falar com nossa equipe?" A firma também criou a Cooley AI, uma subsidiária autônoma projetada para operar com a velocidade de uma startup, permitindo maior liberdade para inovar e testar novas tecnologias sem a burocracia do escritório-mãe.
Perguntas em Aberto para o Futuro do Direito
O futuro do trabalho jurídico, sob a égide da IA, levanta mais perguntas do que respostas. O modelo de horas faturáveis ainda tem vida, mas Proffitt antecipa um cardápio de opções de precificação, incluindo taxas fixas e baseadas em resultados. A formação de novos advogados, o chamado "modelo de aprendizado", torna-se mais complexo. Se o software pode redigir rascunhos iniciais e identificar problemas, como os jovens advogados obterão a prática necessária? Proffitt sugere que o Cooley explora simulações de casos jurídicos, como depoimentos simulados com IA, para aprimorar as habilidades dos associados. A aposta de Proffitt é que a próxima geração de advogados não precisará necessariamente de tantas noites em claro e jantares cancelados para se tornarem excelentes. O teste definitivo virá em uma década, quando os atuais associados juniores estiverem prontos para se tornarem sócios. Se o Cooley tiver encontrado uma maneira melhor de prepará-los, o antigo modelo pode não fazer falta. Caso contrário, nenhuma quantidade de IA poderá compensar a lacuna. A liderança de Proffitt é um indicativo de que o "Big Law" está ciente da necessidade de evoluir, buscando um equilíbrio entre a eficiência tecnológica e a insubstituível conexão humana no exercício do direito.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Business Insider





