A reta final para a COP17, que acontece em Yerevan, Armênia, marca um ponto crucial na jornada global para frear a perda de biodiversidade. Dois anos após o prazo original, 58% das nações signatárias do Acordo de Montreal apresentaram novas estratégias e planos de ação nacionais para a biodiversidade (NBSAPs). Segundo análise da Carbon Brief, 113 de 196 países já cumpriram a exigência, um salto significativo em relação aos 55 que haviam apresentado seus planos há um ano.
A COP17 serve como um marco de revisão intermediária do Kunming-Montreal Global Biodiversity Framework (GBF), um acordo histórico firmado em 2022 com a missão de deter e reverter o declínio da natureza até 2030. O GBF estabeleceu 23 metas ambiciosas para este período, abrangendo desde a restauração de ecossistemas e o combate às mudanças climáticas até o financiamento para países em desenvolvimento protegerem sua rica biodiversidade.
Revisão global e o papel dos NBSAPs
A apresentação dos NBSAPs é um dos pilares para o monitoramento do progresso em direção às metas do GBF. Esses planos detalham como cada país pretende alcançar os objetivos estabelecidos, servindo de base para o relatório global de progresso coordenado pela ONU. A análise da Carbon Brief indica que, além dos 113 países com NBSAPs completos, outros 175 (89%) apresentaram metas nacionais, e 73% submeteram seus relatórios nacionais à ONU.
O avanço na apresentação dos planos é notável, especialmente em regiões como a África, onde países como Argélia, Egito e Etiópia apresentaram novas estratégias. Na América do Sul e Central, Brasil, Chile e Belize estão entre os que atualizaram seus compromissos. A nação anfitriã, Armênia, apresentou seu plano em abril. No entanto, quatro das nações megadiversas do mundo – Papua Nova Guiné, Peru, África do Sul e Estados Unidos – ainda não divulgaram seus novos NBSAPs. A Rússia, detentora da maior extensão territorial do planeta, também está entre os que não apresentaram um plano atualizado.
Desafios financeiros e o progresso desigual
Um dos principais obstáculos para a elaboração e apresentação dos NBSAPs tem sido a falta de financiamento, especialmente para países em desenvolvimento. O Global Environment Facility (GEF), principal fundo multilateral de apoio à preparação desses planos, informou que 120 dos 139 países que solicitaram suporte financeiro desde a COP16 já acessaram os recursos. O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) está trabalhando para resolver as pendências com os 19 países restantes.
A disparidade no cumprimento das metas e na apresentação dos planos reflete os diferentes níveis de capacidade e prioridades entre as nações. Enquanto alguns países demonstram um compromisso robusto e ações concretas, outros ainda lutam para alinhar suas políticas internas com as ambições globais. A COP17 se configura, portanto, não apenas como um palco para celebrar os avanços, mas também como um espaço para pressionar os países que ainda estão aquém das expectativas e para discutir soluções para os desafios persistentes.
Implicações para o futuro da biodiversidade
A metade do caminho percorrido até a COP17 oferece um panorama misto. O aumento significativo no número de países com NBSAPs é um sinal positivo, indicando uma crescente conscientização e compromisso com a agenda de biodiversidade. Contudo, a ausência de planos atualizados de nações megadiversas levanta preocupações sobre a eficácia global do GBF. A revisão intermediária em Yerevan será crucial para identificar gargalos, compartilhar melhores práticas e, possivelmente, reajustar estratégias para garantir que a meta de 2030 seja alcançável.
O financiamento para a conservação da natureza, um tema recorrente nas discussões internacionais, continuará a ser um ponto focal. A pressão por parte de países desenvolvidos para que os países em desenvolvimento cumpram suas metas, sem um aporte financeiro proporcional, pode gerar tensões. A forma como esses desafios serão abordados na COP17 definirá o ímpeto para os próximos anos de implementação do GBF e a real possibilidade de reverter o declínio da biodiversidade até o final da década.
Perguntas em aberto e o caminho adiante
À medida que os delegados se reúnem em Yerevan, diversas perguntas permanecem no ar. Será que a pressão internacional e o apoio financeiro serão suficientes para que países como os EUA e a África do Sul apresentem seus planos de ação em tempo hábil? Como a COP17 lidará com a lacuna de financiamento e garantirá que os recursos cheguem efetivamente aos países que mais precisam?
A revisão intermediária do GBF na COP17 não é apenas um exercício de prestação de contas, mas uma oportunidade para renovar o compromisso global com a natureza. O sucesso dependerá da capacidade dos países em transformar intenções em ações concretas e em colaboração, garantindo que a biodiversidade, essencial para a vida no planeta, seja protegida para as futuras gerações.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Carbon Brief





