A Copa do Mundo de 2026 se aproxima com um novo formato que não apenas altera a dinâmica competitiva, mas também escancara os números de uma operação logística e econômica sem precedentes. Com a expansão para 48 seleções, o torneio dobrará o número de países na fase eliminatória em comparação às edições anteriores, consolidando-se como um evento de escala industrial sob a gestão da FIFA.

Segundo reportagem da Forbes, o impacto financeiro deste ciclo de quatro anos projeta receitas na casa dos 13 bilhões de dólares para a entidade, superando largamente os 7,6 bilhões obtidos no ciclo de 2022. Esse crescimento é impulsionado por direitos de transmissão e hospitalidade que revelam a magnitude da comercialização do futebol moderno, transformando cada partida em uma engrenagem complexa de geração de valor.

A economia das pausas e o valor do tempo

A comercialização do torneio atinge níveis inusitados, com as emissoras de TV prontas para capitalizar sobre as chamadas "pausas para hidratação". Estima-se que a Fox Sports possa gerar pelo menos 250 milhões de dólares apenas com anúncios durante esses intervalos, um valor que, por si só, poderia cobrir grande parte dos custos de direitos de transmissão. Esse mecanismo ilustra como a FIFA e seus parceiros adaptam o produto televisivo para maximizar o retorno em um esporte onde o fluxo contínuo era, historicamente, a regra.

Além disso, o valor das entradas atinge patamares que podem afastar o torcedor comum. Com pacotes de hospitalidade e suítes corporativas que chegam a ultrapassar a marca de 1 milhão de dólares, o evento se posiciona cada vez mais como um ativo de luxo. A disparidade entre os preços oficiais e o mercado secundário, somada aos altos custos de logística para os fãs, como hotéis e transporte, reforça a percepção de que a experiência presencial da Copa do Mundo atende crescentemente a um público de alto patrimônio.

Desafios fiscais e infraestrutura urbana

A realização do torneio em 16 cidades espalhadas por três países impõe um ônus significativo aos cofres públicos. Cidades anfitriãs, como Kansas City, investiram dezenas de milhões de dólares em infraestrutura e segurança, muitas vezes superando a marca dos 100 milhões de dólares por localidade. A renúncia fiscal projetada e concedida por estados americanos como Flórida e Geórgia, que chega a quase 60 milhões de dólares, levanta questões sobre o custo-benefício real para os contribuintes locais.

A segurança também se tornou um pilar central e oneroso. A FEMA distribuiu 221 milhões de dólares em concessões apenas para proteção contra ameaças modernas, como drones, evidenciando que a complexidade de proteger um evento descentralizado é exponencialmente maior do que em edições anteriores baseadas em um único país. Esse cenário de gastos públicos massivos contrasta com a expectativa de lucros privados da FIFA, criando uma tensão constante sobre quem realmente financia a viabilidade do espetáculo.

O impacto nos clubes e o valor do troféu

O ecossistema do futebol profissional também sente o impacto direto do torneio. A FIFA destinou 250 milhões de dólares para compensar os clubes que cedem jogadores, uma tentativa de mitigar o desgaste das estrelas globais. Ao mesmo tempo, o valor material do próprio troféu da Copa do Mundo, inflado pela alta do ouro, serve como uma metáfora para a valorização de todo o ativo: o objeto vale hoje substancialmente mais do que valia em 2022, refletindo a escalada de preços em todos os setores da economia global.

Para os stakeholders, o desafio é equilibrar a paixão esportiva com a realidade econômica de um torneio que exige uma complexa integração transnacional de impostos e regulamentações locais. Jogadores, árbitros e treinadores precisarão navegar por uma teia de taxas fiscais rigorosas, dependendo de onde cada partida será realizada, algo inédito em escopo para a maioria dos atletas.

O futuro da expansão

O que permanece incerto é se este formato expandido se provará sustentável a longo prazo para as cidades-sede. Enquanto a audiência global deve superar os 5 bilhões de espectadores, a operação local enfrentará um verdadeiro teste de estresse, levantando debates no mercado esportivo sobre a capacidade de manter alta ocupação em todos os estádios durante uma fase de grupos muito mais extensa. A pergunta que fica é se a escala da Copa do Mundo está atingindo o seu limite de eficiência operacional.

O sucesso financeiro da FIFA parece garantido, mas o verdadeiro custo social e econômico para os países anfitriões só poderá ser medido com precisão após o apito final em Nova Jersey. A evolução do torneio sugere uma mudança permanente no modelo de negócios do esporte, onde a escala global e a hipermonetização prevalecem sobre a conveniência local.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España