A gigante francesa de logística CMA CGM realizou o primeiro abastecimento de um navio porta-contêineres com etanol no Brasil. Em uma operação no Porto de Santos, a embarcação CMA CGM Iron recebeu 650 mil litros de etanol anidro fornecido pela Copersucar. O evento marca a primeira vez que o biocombustível é usado para um navio transoceânico no país, segundo as empresas envolvidas.
O teste, embora de pequena escala, aponta para uma nova rota na complexa descarbonização do transporte marítimo. Em um setor classificado como "difícil de abater" em emissões e sem regulações globais mandatórias, a iniciativa voluntária testa a viabilidade de uma solução que o Brasil já domina: o etanol.
Uma solução na prateleira
Enquanto o debate global sobre combustíveis verdes para navios frequentemente se concentra em metanol e amônia, a iniciativa da CMA CGM e Copersucar aposta em uma tecnologia madura e com infraestrutura existente no Brasil. O navio utilizado possui um motor "trifuel", capaz de operar com combustíveis tradicionais, metanol ou etanol, o que demonstra a busca por flexibilidade em vez de uma aposta única.
Segundo o CEO da Copersucar, Tomás Manzano, a operação visa mostrar que o etanol "é uma solução já disponível". Para a CMA CGM, é um teste pragmático para validar o uso do biocombustível em condições comerciais reais, utilizando uma pequena fração de sua frota de quase 700 navios para avaliar uma alternativa que pode reduzir as emissões em até 70%.
O preço da descarbonização
O principal obstáculo, como admitido pelas próprias empresas, é o custo. O etanol é mais caro que o combustível de bunker tradicional, derivado do petróleo. A aposta é que a diferença possa ser compensada pela geração e venda de créditos de carbono, um mercado ainda em consolidação e sujeito a volatilidades. A viabilidade econômica, portanto, definirá a escala da adoção.
Sem um acordo vinculante na Organização Marítima Internacional (OMI) para forçar a transição — a meta de "net-zero" para 2050 ainda carece de medidas compulsórias —, movimentos como este permanecem no campo da estratégia corporativa e da experimentação voluntária, dependentes da disposição das empresas em arcar com os custos da inovação.
O abastecimento em Santos é, portanto, mais que um marco técnico; é um sinal de mercado. Ele coloca o etanol brasileiro no mapa da logística global, não apenas como combustível para automóveis. A questão que fica é se a equação econômica e regulatória permitirá que este teste pioneiro se transforme em rotina nos oceanos.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Money Times



