O aroma salgado do mar e o ranger familiar dos cascos de navios são a trilha sonora de Roterdã, uma cidade onde o porto é o coração pulsante. É nesse cenário, entre guindastes imponentes e águas que espelham o céu, que o estúdio The New Raw concebeu uma ideia singular: dar nova vida às cordas de barcos que, de outra forma, seriam apenas mais um resíduo a poluir o oceano.

Foteini Setaki, fundadora do estúdio, recolheu uma série de cordas plásticas que outrora serviram para atracar e manobrar embarcações. O destino dessas cordas, antes de chegarem às mãos dos designers, era o aterro ou o mar. A transformação é um processo meticuloso. As cordas são levadas para Maastricht, onde são limpas, trituradas e recicladas mecanicamente em grânulos plásticos. O material, uma vez de volta ao estúdio em Roterdã, é derretido e cuidadosamente impresso em 3D, camada por camada, para dar forma a bancos urbanos. A beleza reside na simplicidade e na inteligência do processo: o plástico se funde à medida que é depositado, dispensando a necessidade de aglutinantes externos. Cada peça é um testemunho da origem do material, exibindo tonalidades únicas que refletem as cores originais das cordas, sem a necessidade de pigmentos ou revestimentos adicionais. A inspiração para o design, contudo, vai além da mera reciclagem. A base pontiaguda dos bancos imita o movimento de um pião, permitindo que balancem suavemente quando alguém se senta. Esse balanço delicado é uma homenagem direta às boias que flutuam e oscilam nas águas portuárias, um movimento que traz uma qualidade lúdica ao ato de sentar e conecta o usuário à essência marítima do objeto.

O projeto, batizado de Buoy, não é apenas uma demonstração de design criativo, mas também um forte statement sobre sustentabilidade e a economia circular. A reciclagem de cordas marinhas é um desafio particular, dada a complexidade de seus materiais e a acumulação de resíduos ao longo do tempo. A seleção cuidadosa de cordas com alto teor de polipropileno é crucial para o sucesso do processo. Embora nenhum plástico virgem seja utilizado, uma pequena porcentagem de aditivos é incorporada para garantir a durabilidade do mobiliário em ambientes externos, incluindo proteção contra raios UV – aditivos estes que, segundo Setaki, são compatíveis com futuras reciclagens do material. Cada banco é gravado com seu número de lote e produção, e posicionado próximo ao porto de onde o material foi retirado. O objetivo é claro: contextualizar a prática do design com o local de trabalho e fortalecer a relação entre a cidade e seu porto. Essa abordagem, que busca recursos locais e excedentes, pode ser replicada em outras cidades portuárias, incentivando redes locais e a valorização de resíduos descartados.

O Buoy está entre os finalistas do Dezeen Award de 2026 na categoria de design sustentável, competindo com projetos inovadores como materiais de construção sem cimento feitos de caroços de tâmara e luminárias criadas a partir de publicações defeituosas. A iniciativa do The New Raw, fundado por Setaki e Panos Sakkas em 2016, que se dedica a imprimir em 3D resíduos plásticos locais para criar mobiliário, demonstra como a criatividade e a consciência ambiental podem andar de mãos dadas, transformando o que seria lixo em peças de arte funcional e cheias de significado. A jornada do material e a experiência de sentar tornam essa relação tangível, convidando a uma reflexão sobre o futuro do design e a responsabilidade que temos com os recursos do nosso planeta.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Dezeen