O estrondoso avanço da inteligência artificial, impulsionado por chips de alta performance, um consumo energético colossal e, surpreendentemente, por grandes quantidades de vidro, encontra um de seus fornecedores mais críticos na Corning. Com uma história de 175 anos, a companhia americana, conhecida por sua expertise em ciência de materiais, está no centro da infraestrutura que sustenta a revolução da IA, fabricando a fibra óptica, fina como um fio de cabelo, que transporta dados entre servidores, edifícios e data centers.
A demanda por esses componentes se tornou tão intensa que a Corning firmou acordos multibilionários com gigantes como Amazon, Nvidia, Meta e Verizon. Recentemente, a AT&T anunciou um investimento de US$ 3 bilhões para aprimorar seu serviço de internet doméstica, enquanto a Apple comprometeu outros US$ 2,5 bilhões para o Gorilla Glass, o material resistente a arranhões que protege iPhones e Apple Watches. Para uma das empresas tecnológicas pioneiras dos Estados Unidos, fundada em 1851 e responsável por inovações que vão desde o vidro das lâmpadas de Thomas Edison até os utensílios de cozinha Pyrex, a infraestrutura de IA representa um vibrante terceiro ato em sua longa trajetória.
As ações da Corning apresentaram uma valorização expressiva, quase dobrando de valor nos últimos 12 meses, superando em muito o avanço de 16% do S&P 500. Em 2025, a empresa registrou um lucro líquido de US$ 1,6 bilhão sobre vendas de US$ 15,6 bilhões, um aumento de 19% em relação a 2024. As projeções para o ano corrente indicam um crescimento de quase 25% nas receitas, alcançando US$ 19,3 bilhões, com o lucro líquido previsto para dobrar. O CEO Wendell Weeks, de 67 anos, projeta que a empresa atinja US$ 40 bilhões em receita até 2030.
A reinvenção da fibra óptica
“A fibra óptica e todos os produtos utilizados hoje em dia [para IA generativa] foram originalmente inventados para telecomunicações”, afirma Weeks, que prefere trajes sob medida a um visual mais informal. “Inventamos muitos deles décadas atrás e agora estamos testemunhando uma reinvenção completa desse conjunto de produtos.” Essa reinvenção é crucial, pois os componentes que antes eram pensados para a expansão das redes de internet nos anos 1990 e 2000 agora são a espinha dorsal da crescente demanda por processamento e transmissão de dados da IA.
No entanto, em meio a este período de ouro, a Corning não esquece seu passado volátil. Durante a bolha das telecomunicações no final dos anos 90 e início dos 2000, a empresa se endividou pesadamente e investiu US$ 10 bilhões em aquisições. Quando a bolha estourou em 2001, os pedidos de fibra óptica de clientes importantes como a Nortel cessaram abruptamente. O resultado foi um colapso nas ações da Corning, que despencaram de US$ 113 para US$ 1,10 em menos de dois anos.
Lições do passado e diversificação estratégica
“Quando assumi o cargo, estávamos numa situação bastante complicada. Vínhamos do estouro das pontocom, que devastou muitos de nossos clientes”, relembra Weeks, que se tornou CEO em 2005. “Pela primeira vez em muito tempo, tivemos que fazer demissões significativas para que a empresa voltasse a uma posição sólida. Tivemos que refletir profundamente sobre qual era nossa missão.” O que salvou a Corning, em última instância, foi sua vasta reserva de inovações em ciência de materiais. As telas LCD ultrafinas para televisores de tela plana, o Gorilla Glass —desenvolvido na década de 1960 e que se tornou um sucesso com o lançamento do iPhone em 2007, após uma reunião crucial com Steve Jobs— e outros avanços em vidro e cerâmica continuaram a gerar receita.
Atualmente, a fibra óptica volta a liderar o crescimento, representando 45% dos US$ 8,6 bilhões em receita da Corning no primeiro semestre do ano. Weeks acredita que essa linha de negócios continuará a crescer, mas está focado em diversificar a empresa para evitar uma nova espiral descendente. Uma das estratégias envolve convencer montadoras a adotarem o Gorilla Glass em para-brisas, que seriam mais resistentes a danos e mais leves, apesar do custo inicial mais alto.
Inovação contínua e novas fronteiras
A pesquisa e desenvolvimento (P&D) permanece uma prioridade para a Corning, com um orçamento previsto de cerca de US$ 1 bilhão para o ano, representando 7% da receita. A empresa investe em instalações de ponta, como o centro Sullivan Park, o que contribui para a retenção de talentos científicos e de engenharia por décadas. Essa cultura de inovação se estende a parcerias estratégicas, como a de longa data com a Apple, que transformou uma fábrica em Kentucky no fornecedor global de Gorilla Glass para iPhones e Apple Watches, gerando cerca de US$ 1,4 bilhão em 2025.
Com parceiros de nuvem hiperescala, a Corning desenvolve fibras mais densas e avançadas para maior capacidade e menor latência, com potencial para substituir cabos de cobre em GPUs e evitar o superaquecimento. A expansão da empresa para o polissilício e a fabricação de módulos solares nos Estados Unidos surge em um momento oportuno, considerando o cenário de tensões comerciais globais. A energia solar é a linha de negócios de maior crescimento da Corning, com vendas quase dobrando para US$ 808 milhões no primeiro semestre de 2026.
“Tínhamos as capacidades necessárias, então o fizemos. 90% dos materiais de uma célula fotovoltaica são materiais nos quais somos especialistas”, explica Weeks. A empresa também investiga novos tipos de vidro para painéis solares, mais duráveis e resistentes, e formas de capturar espectros de luz mais amplos para aumentar a geração de energia. Além disso, a Corning explora o uso de sua tecnologia de filtragem cerâmica, desenvolvida para sistemas de exaustão automotiva, para capturar emissões industriais de carbono de forma mais acessível.
Para Weeks, a capacidade de inovar e se adaptar a novas demandas, como a da IA e da energia solar, demonstra que mesmo um fabricante de vidro com 175 anos ainda pode aprender e dominar novos truques, assegurando sua relevância em um cenário tecnológico em constante mutação.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Forbes España





