A adoção de criptoativos avança na América Latina, mas não de forma homogênea. De um lado, investidores e consumidores buscam novas formas de transacionar, poupar e se proteger da inflação. Do outro, reguladores correm para criar regras para um setor que opera, em grande parte, em zonas cinzentas. O resultado é um mapa complexo e desigual, onde a inovação convive com a informalidade e o vácuo legal.

Uma ampla investigação regional do Grupo de Diarios América, detalhada em reportagem do jornal argentino La Nación, revela a dupla realidade do ecossistema cripto latino-americano. A tese central é que o avanço se dá em duas velocidades distintas: em mercados como Brasil e Chile, a discussão é sobre integração e regulação sofisticada. Já em países como Argentina e Venezuela, o uso é impulsionado pela necessidade econômica e pela sobrevivência financeira, operando como um sistema paralelo à economia formal.

A dupla face da adoção

A principal linha que divide o cenário cripto na América Latina não é geográfica, mas econômica. Nos países marcados por instabilidade crônica, os ativos digitais assumiram um papel de tábua de salvação. Na Venezuela e na Argentina, a desvalorização constante da moeda local e a alta inflação transformaram as criptomoedas, especialmente as stablecoins atreladas ao dólar, em um refúgio de valor e uma ferramenta essencial para o envio de remessas e pagamentos cotidianos. Nesses contextos, a adoção não é uma escolha por afinidade tecnológica, mas uma resposta pragmática à falência dos instrumentos financeiros tradicionais. O uso é disseminado na economia informal, como meio de troca entre particulares e para a compra de bens e serviços.

Em contraste, em economias mais estáveis como Brasil, Chile e México, a narrativa é outra. Aqui, o movimento é de integração dos criptoativos ao sistema financeiro estabelecido. Segundo a reportagem, Fábio Plein, da Coinbase Brasil, afirma que as stablecoins já funcionam como uma "infraestrutura de pagamentos real" no país, permitindo a aquisição de desde imóveis a produtos de e-commerce. A Associação Brasileira de Criptoeconomia (ABCripto) complementa, citando a expansão via cartões de débito cripto e processadores de pagamento que abstraem a volatilidade para o comerciante. O desafio, aponta Plein, é cultural: muitos ainda veem os ativos como algo para poupar, não para gastar, o que retarda a transição para o uso cotidiano.

O labirinto regulatório

Se a motivação para o uso é díspare, o cenário regulatório é ainda mais fragmentado. Brasil e Chile despontam como os mercados com os arcabouços mais desenvolvidos. No Brasil, a lei atribuiu ao Banco Central a função de regular e fiscalizar os provedores de serviços de ativos virtuais, tirando o setor de um limbo jurídico. No Chile, a Lei Fintech, considerada uma das mais robustas da região, exige que as empresas do setor se registrem e cumpram uma série de requisitos de governança, capital e gestão de risco, sob supervisão da Comissão para o Mercado Financeiro. O caso de El Salvador, que adotou o Bitcoin como moeda de curso legal em 2021 mas reverteu parcialmente a medida em 2025 por compromissos com o FMI, serve como um lembrete da volatilidade política que ainda paira sobre o tema.

Em um segundo grupo de países, a regulação é parcial e reativa. Argentina, Colômbia, México e Peru possuem normas focadas principalmente na prevenção à lavagem de dinheiro (PLD), mas carecem de uma lei integral que defina a natureza dos ativos e as regras para os intermediários. Na Argentina, o Banco Central chegou a proibir bancos de oferecerem cripto, mas agora reavalia a posição, ilustrando a incerteza que domina o ambiente de negócios. Em nações como a República Dominicana, a ausência de legislação específica é quase total, deixando os usuários por sua própria conta e risco. Essa falta de clareza dificulta a formalização do mercado e a entrada de players institucionais, que dependem de segurança jurídica para operar.

O futuro da indústria cripto na América Latina não será uma história única, mas uma coleção de narrativas nacionais. A trajetória de cada país será definida pela sua capacidade de equilibrar o fomento à inovação com a proteção ao consumidor e a estabilidade financeira. Enquanto alguns mercados se consolidam como hubs regulados e integrados, outros podem ver os ativos digitais se aprofundarem como um sistema financeiro sombra, resiliente e essencial, porém permanentemente à margem das regras formais.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · La Nación — Tecnología