O setor de geração distribuída de energia no Brasil, que experimentou um crescimento exponencial nos últimos anos, agora se encontra em um momento de crise financeira. Impulsionado por incentivos fiscais na tarifa de energia e pela queda nos custos das placas solares, o mercado atingiu um ponto de saturação, gerando sobreoferta e um endividamento considerável entre as empresas. Essa conjuntura, no entanto, tem se mostrado um catalisador para fundos de investimento, que veem no cenário de dificuldades uma oportunidade para adquirir ativos e consolidar o setor.

A geração distribuída, que engloba desde consumidores individuais com painéis solares em seus telhados até pequenas usinas que fornecem energia para a rede local, tornou a energia solar a segunda maior fonte da matriz energética brasileira. O rápido avanço, contudo, não foi acompanhado por um fluxo de receita que sustentasse o nível de endividamento contraído. Um dos marcos dessa crise foi a recuperação judicial da Pontal-Thopen, uma das maiores empresas do ramo, com um passivo de R$ 4,56 bilhões.

A tese de investimento para os fundos reside na expectativa de que a demanda por energia barata continuará a crescer. Aqueles que conseguirem garantir usinas com tarifas mais vantajosas, especialmente aquelas com contratos de longo prazo, estarão em posição de destaque. José Guilherme Souza, sócio da Vinci Compass, destaca que "esse estoque não morre e essa energia tem valor muito competitivo". A Vinci Compass, por exemplo, já adquiriu 50% da Faro Energy, uma das líderes em geração distribuída, com planos de expandir sua participação.

Consolidação em Curso

A atual onda de aquisições tem sido notada com veemência desde o início do ano, segundo André Millions, diretor da consultoria Thymos Capital. Ele aponta que a consolidação é a forma mais eficaz de superar crises significativas, conferindo maior capilaridade e robustez às empresas. A Vinci Compass, através de seu fundo de private equity focado em infraestrutura com impacto climático, tem sido uma das protagonistas. O fundo, lançado em 2023 com capital de investidores globais e apoio do BNDES, investe em energia renovável e saneamento, já possuindo participação na Mira Energia, outra empresa do setor de geração distribuída.

A aquisição de participação na Faro Energy foi favorecida pela existência de contratos de longo prazo com clientes empresariais e por um modelo de financiamento que priorizou capital próprio e endividamento compatível com o valor dos ativos. "Ela não precisou se alavancar no nível da holding para crescer, o que a colocou numa posição de fortaleza no seu balanço", observa Souza. O plano da Vinci é expandir a Faro, tanto organicamente quanto por meio de aquisições, com a meta de dobrar o tamanho da empresa no próximo ano. O fundo climático da Vinci já alocou metade de seus R$ 2 bilhões captados e estuda novas aquisições, incluindo uma empresa de geração eólica centralizada e a participação em leilões de baterias.

Oportunidades no "Saldão"

Outra gestora ativa nesse "saldão do setor" é a Suno Asset, com seu fundo imobiliário voltado para energia renovável. O fundo, que se tornou o maior da gestora com R$ 5,5 bilhões em ativos, dobrou sua captação em agosto para R$ 1,9 bilhão, contando com 131 mil cotistas. Inicialmente, a Suno focava na construção de novas usinas fotovoltaicas, mas desde o primeiro trimestre de 2025, a aquisição de usinas prontas tornou-se mais vantajosa, conforme Vitor Duarte, diretor de investimentos da Suno Asset. "Estamos comprando de quem tinha usina de geração distribuída, mas esse não era seu foco, de empresas endividadas", explica Duarte. O fundo imobiliário, isento de tributação de rendimentos, planeja expandir seu portfólio de 37 para 100 usinas nos próximos seis meses, elevando a capacidade de geração de 150 MW para 400 MW.

Corrida Regulatória e Sobrecarga

A expansão acelerada da geração distribuída foi fortemente influenciada pela Lei 14.300, de 2022, que estabeleceu regras de transição para a redução gradual dos benefícios da compensação de créditos. Projetos que buscaram acesso até o início de 2023 garantiram a manutenção das regras mais vantajosas até 2045. Essa urgência regulatória, combinada com o barateamento das placas solares chinesas e a isenção de impostos de importação até 2023, atraiu um grande volume de investimentos, inclusive de players menos experientes. Rafael Moret, CEO da consultoria Noris, alerta que essa oportunidade foi "iludindo" muitos, gerando uma sobreoferta onde "o crescimento aconteceu de forma mais rápida do que a aquisição de clientes pode acompanhar".

A consequência foi uma guerra de preços em algumas regiões, com descontos agressivos que reduziram a receita por megawatt-hora (MWh) abaixo das projeções. Os custos fixos, como arrendamento e manutenção, além do serviço da dívida — agravado pela alta da Selic — pressionaram as empresas. A Órigo Energia, por exemplo, registrou despesas financeiras superiores à receita líquida em 2025, com uma dívida líquida de R$ 3,6 bilhões.

Novas Regras e Incertezas

O cenário regulatório continua em evolução. A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) discute mudanças que podem afetar o setor, como a possibilidade de distribuidoras cortarem o recebimento de energia de usinas distribuídas maiores em períodos de excesso de geração. Há também discussões sobre a implementação de tarifas horárias, que poderiam reduzir o valor dos créditos de energia injetada em horários de baixa demanda. Essas potenciais mudanças, embora ainda sujeitas a dúvidas sobre seu alcance, podem impactar diretamente o retorno dos investimentos no setor. O futuro da geração distribuída dependerá da capacidade das empresas e fundos de navegar por esse ambiente regulatório complexo e pela busca por um equilíbrio entre crescimento e sustentabilidade financeira.

Com reportagem de Brazil Valley

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