A crise financeira que abala o Paraguai atingiu seu ápice com a renúncia do presidente do Banco Central, Carlos Carvallo, em meio a um processo de resolução contra o Ueno Bank, um dos principais bancos digitais do país. A instituição, que detém cerca de 3 milhões de clientes e administra aproximadamente US$ 850 milhões em recursos públicos, foi colocada sob intervenção após a identificação de graves problemas em suas contas, provocando a reunião de clientes em frente a agências fechadas em busca de acesso aos seus fundos.
O caso adquiriu uma dimensão política considerável devido às conexões entre o Ueno Bank e figuras proeminentes do governo do presidente Santiago Peña. Carlos Carvallo, antes de assumir a presidência do Banco Central em 2023, ocupou a liderança do próprio Ueno. Paralelamente, Santiago Peña manteve participação societária no grupo empresarial que controla o banco até o ano passado. A situação gerou descontentamento entre investidores e correntistas, que se viram impossibilitados de acessar seus recursos, e culminou na abertura de uma investigação criminal pelo Ministério Público, que resultou na detenção de oito indivíduos ligados à administração da instituição financeira.
O Foco da Intervenção no Ueno Bank
A deterioração da saúde financeira do Ueno Bank tornou-se evidente após ajustes contábeis realizados durante um processo de fiscalização. O Banco Central do Paraguai informou que o índice de solvência da instituição, métrica crucial para avaliar sua capacidade de absorver perdas e cumprir requisitos de capital, caiu para menos da metade do limite regulatório estabelecido. Diante desse cenário, a autoridade monetária decidiu, por unanimidade, iniciar um procedimento de resolução bancária em 2 de novembro. O objetivo principal dessa medida é organizar a alocação de ativos e passivos, assegurar a proteção dos depositantes e, fundamentalmente, prevenir a propagação de problemas para o restante do sistema financeiro paraguaio.
As suspeitas sobre a conduta do Ueno Bank já eram objeto de atenção por parte dos órgãos reguladores. Uma das linhas de investigação concentra-se em possíveis operações de crédito concedidas a empresas associadas ao Grupo Vázquez, o conglomerado controlador do banco. Há também suspeitas de financiamento indireto de transações entre companhias pertencentes ao mesmo grupo empresarial. Apesar das preocupações levantadas, a instituição financeira havia, até então, negado a ocorrência de irregularidades em suas operações questionadas. O Ueno Bank, que experimentou um crescimento acelerado nos últimos anos, consolidou-se como o maior emissor de cartões de crédito no Paraguai, expandindo sua base de clientes para aproximadamente 3 milhões em um país com pouco mais de 7 milhões de habitantes.
O Impacto da Crise na Liderança do Banco Central
A renúncia de Carlos Carvallo foi diretamente solicitada pelo presidente Santiago Peña na terça-feira, 3 de novembro, em meio a crescentes questionamentos sobre a eficácia da fiscalização do Banco Central sobre o Ueno Bank. A trajetória de Carvallo, que presidiu a antiga Financiera Ueno até 2023 antes de assumir o comando da autoridade monetária, tornou-se um ponto de atrito com parlamentares. Estes exigiram explicações detalhadas sobre o processo de supervisão do banco durante sua gestão anterior. Carvallo justificou sua saída como um movimento necessário para permitir que o órgão regulador conduzisse os procedimentos de resolução sem a interferência ou pressão inerente a disputas políticas. Após sua renúncia, a economista Liana Caballero, membro da diretoria do Banco Central, foi nomeada para exercer interinamente a presidência da instituição.
O Presidente Peña Sob Pressão
O presidente paraguaio, Santiago Peña, também se encontra sob escrutínio devido à sua relação passada com o Grupo Vázquez, do qual foi sócio até 2025. Durante seu mandato presidencial, observou-se um aumento significativo nos depósitos de instituições públicas alocados no Ueno Bank. Entre os fundos mantidos pela instituição financeira destacam-se investimentos do Instituto de Previdência Social (IPS), responsável pela gestão de aposentadorias e pela oferta de serviços de saúde no país. De acordo com a agência Reuters, o banco era o depositário de cerca de US$ 850 milhões em dinheiro público, com uma parcela considerável pertencente ao sistema previdenciário. A concentração desses recursos em uma única instituição passou a ser questionada pela oposição, que busca esclarecimentos sobre os critérios de seleção do banco e a existência de potenciais conflitos de interesse.
Implicações e Perguntas em Aberto
O caso Ueno Bank levanta sérias questões sobre a governança corporativa, a supervisão regulatória e a relação entre o setor financeiro e o poder político no Paraguai. A oposição no Congresso já anunciou a intenção de apresentar pedidos de impeachment contra Peña e o vice-presidente Pedro Alliana, embora o sucesso dessas iniciativas dependa de apoio adicional em um Congresso onde o partido do presidente mantém influência. Peña, por sua vez, prometeu que os responsáveis por quaisquer irregularidades serão levados à Justiça e buscou tranquilizar o mercado quanto a um risco de crise bancária generalizada. O governo enfrenta agora o desafio de garantir a devolução dos depósitos dos clientes e, ao mesmo tempo, esclarecer como uma instituição com forte presença de recursos públicos pôde chegar a uma situação de insuficiência de capital sem que os problemas fossem identificados e corrigidos em estágios anteriores.
O desfecho da intervenção no Ueno Bank e as conclusões das investigações criminais e financeiras serão cruciais para determinar a extensão do impacto sobre o sistema financeiro paraguaio e a confiança dos investidores. A forma como o governo Peña lidará com as consequências políticas e econômicas desta crise definirá, em parte, sua capacidade de gerir o país e de restaurar a credibilidade das instituições financeiras.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney




