Cristiano Pinto da Costa está deixando o comando da Shell no Brasil para assumir uma posição de liderança na XRG, uma companhia de Abu Dhabi criada há dois anos com um apetite voraz: se tornar uma gigante global de gás natural liquefeito (GNL) e petroquímica. A partir de 1º de agosto, o executivo será o diretor internacional sênior da empresa, reportando-se diretamente ao CEO e chairman, Sultan Al Jaber.
Após uma carreira de 28 anos no grupo anglo-holandês, a mudança representa mais do que uma troca de cargo. É um movimento que ilustra a agressividade com que o capital do Oriente Médio busca não apenas ativos, mas também o talento executivo necessário para gerenciá-los. A missão de Costa será encontrar e adquirir oportunidades de investimento fora do Oriente Médio, principalmente nas Américas, Austrália e Ásia-Pacífico, com um poder de fogo de mais de US$ 100 bilhões.
O mandato de US$ 100 bilhões
A XRG é um veículo de investimento da Adnoc, uma das maiores petroleiras do mundo, e sua estratégia é ambiciosa: transformar-se na terceira maior petroquímica e na quinta maior empresa de GNL do planeta até 2030. Para isso, o plano é construir um negócio 100% verticalizado, do poço de exploração ao consumidor final, passando por plantas de liquefação, trading e terminais de regaseificação.
A tese por trás do investimento massivo é dupla. Primeiro, a diversificação geográfica para os Emirados Árabes, mitigando a dependência de uma única região. Segundo, uma aposta na centralidade do gás natural como combustível da transição energética. Visto como uma alternativa mais limpa ao carvão e fundamental para garantir a estabilidade da rede elétrica diante da intermitência de fontes renováveis, o mercado de GNL tem uma projeção de dobrar de tamanho até 2050. A crescente demanda de energia por data centers e inteligência artificial apenas reforça essa aposta.
Um executivo para a missão
A escolha de Cristiano Pinto da Costa não foi acidental. Seu perfil se alinha perfeitamente ao desafio, que ele mesmo descreveu ao Brazil Journal como uma oportunidade de experimentar algo novo, próximo ao universo de private equity. Sua trajetória na Shell vai muito além da gestão da operação brasileira. Com mais de 15 anos em Londres e passagens por Houston, ele acumulou experiência direta em desenvolvimento de negócios de gás, trading de GNL e, crucialmente, em reestruturações e desinvestimentos em escala global.
Foi ele quem liderou a reorganização do negócio de lubrificantes da Shell, vendendo fábricas e construindo novas unidades na Ásia para acompanhar a demanda. Também atuou no time de desinvestimentos após a aquisição da British Gas, redesenhando o portfólio da companhia. É essa experiência como construtor e negociador de portfólios que a XRG busca para executar seu plano de aquisições. O mandato inicial de quatro anos prevê a construção do portfólio, com a possibilidade de, no futuro, Costa assumir o comando do negócio que ajudou a criar.
A movimentação sinaliza uma nova dinâmica no mercado de energia, onde players estatais com capital abundante não hesitam em recrutar executivos de topo das majors ocidentais para acelerar sua expansão. A escolha de um brasileiro para liderar a busca por ativos nas Américas, incluindo o Brasil, adiciona uma camada de interesse geopolítico à estratégia. O sucesso da empreitada dependerá da habilidade de Costa em navegar um cenário competitivo e transformar capital em um império energético coeso.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Brasil Journal Tech

