As ruas de Havana e Santiago de Cuba, outrora vibrantes, hoje ecoam um silêncio perturbador, pontuado apenas pelo ocasional som de um carro de boi ou pelo cheiro de lixo queimado. A ilha comunista, que um dia se orgulhou de seu sistema de saúde e distribuição de alimentos, encontra-se em um estado de decomposição acelerada. O que antes eram problemas pontuais, como a escassez de medicamentos ou apagões, tornou-se a rotina de uma população que vê o Estado, principal pilar de sua existência, desmoronar a olhos vistos. A reportagem do The Atlantic, baseada em observações de agosto, revela uma Cuba em profunda crise humanitária e econômica, onde a fome é palpável e a ausência do governo, uma constatação diária.
O cenário é desolador. Cartões de racionamento permanecem em branco por semanas, o salário médio de um funcionário público mal cobre o custo de uma cesta básica, e a retirada de pequenas quantias em bancos se tornou um desafio. A outrora onipresente figura do policial e do soldado deu lugar a uma ausência notável, um reflexo do enfraquecimento do aparato estatal. Em áreas mais remotas, pescadores retornam a métodos ancestrais de conservação de peixe devido à falta de eletricidade para refrigeração. A retórica oficial de um governo que atende a todas as necessidades materiais e espirituais de seus cidadãos soa oca diante da realidade de mendicância e abandono. Quase ninguém mais acredita no sistema, e muitos, especialmente fora da capital, agem como se o governo simplesmente não existisse mais.
A Sombra do Colapso Estatal
O colapso do Estado cubano não é um fenômeno repentino, mas um processo de décadas que agora se agrava de forma chocante. A infraestrutura, desde os edifícios coloniais até os serviços básicos, está em ruínas. Igrejas, antes reprimidas pelo regime ateísta instaurado após 1959, agora buscam retomar seus espaços e oferecer um mínimo de assistência. O padre Iván Guerra Álvarez, ao observar Havana de uma janela de seu convento, percebe a iminência de uma virada histórica. "A Igreja terá um papel grande na transição", afirma, ciente de que a instituição religiosa é uma das poucas estruturas fora do governo com capilaridade para atuar.
Essa fragilidade estatal se manifesta de diversas formas. A falta de eletricidade é rotineira, e em cidades como Santiago de Cuba, a paisagem é marcada por mais carros de boi do que veículos motorizados. A pobreza, embora não seja novidade na ilha, assume contornos dramáticos com o aumento da mendicância. Famílias inteiras, sem qualquer suporte estatal, dependem da caridade ou da coleta de materiais recicláveis para sobreviver. A casa de uma senhora de 76 anos, visitada pela reportagem, era um quarto insalubre sem eletricidade, onde ela e sua filha dormiam em estruturas de metal com papelão.
O Ressurgimento da Fé e o Êxodo
Em meio à desolação e ao vácuo deixado pelo Estado, a religião emerge como um pilar de esperança e suporte. O catolicismo e a santeria, crenças tradicionais afro-cubanas, florescem, assim como as igrejas domésticas, muitas delas evangélicas. Essa expansão religiosa é, em parte, uma resposta às políticas americanas, que direcionam ajuda humanitária através de organizações baseadas na fé. Contudo, é, acima de tudo, um reflexo do recuo do Estado e uma indicação da direção futura da ilha.
O sistema de saúde, outrora um símbolo do socialismo cubano, agora exibe suas falhas mais graves. O que foi apresentado como um modelo mundial de clínicas locais e médicos enviados ao exterior – muitos dos quais em condições análogas à mão de obra forçada – agora sofre com a fuga de profissionais. Em Cayo Granma, uma enfermeira solitária tenta atender a mais de 800 residentes e populações vizinhas, lutando contra a escassez de água potável, medicamentos e a constante saída de colegas. "Temos que fazer milagres aqui", desabafa Clara Luaces, uma profissional de 55 anos que se vê sobrecarregada e sem perspectivas de aposentadoria, pois não há quem a substitua.
Implicações e o Futuro Incerto
A raiva e a desilusão com o regime são palpáveis. Muitos cubanos, mesmo aqueles que antes apoiavam a revolução, expressam profundo descontentamento. A ausência de música, risadas e a sensação de um país "congelado no tempo" marcam a experiência cotidiana. A culpa pelo declínio não é atribuída majoritariamente aos Estados Unidos ou ao embargo, mas sim à própria gestão do governo, que muitos descrevem como um "embargo interno". A pandemia de coronavírus, ao dizimar o turismo e as remessas, expôs ainda mais a fragilidade de uma economia já esgotada.
O crescimento das igrejas evangélicas é notável, contrastando com os rituais católicos mais tradicionais com os quais muitos cubanos cresceram. Esses novos templos, muitas vezes improvisados, tornam-se centros de comunidade e auxílio. Mesmo em ambientes mais formais, como um lar para idosos administrado pela Igreja Católica, ex-servidores públicos e militares se sentem abandonados pelo Estado e pelas famílias, que em muitos casos emigraram. O testemunho de um ex-soldado com uma tatuagem de Che Guevara, que lutou em Angola, reflete a profunda decepção com o rumo do país, chegando a desejar bombardeios contra os líderes atuais.
Perguntas em Aberto
A transição cubana, se vier, promete ser complexa e incerta. A capacidade da Igreja de preencher o vácuo deixado pelo Estado é um fator crucial, mas as dinâmicas políticas e sociais que moldarão o futuro da ilha ainda são nebulosas. A emigração em massa, que já retirou até um quarto da população, pode continuar a drenar o país de seus talentos e força de trabalho. A questão que paira é se a ilha conseguirá se reerguer das cinzas de seu modelo econômico falido e do colapso de suas instituições, ou se continuará a definhar.
A ilha, outrora um símbolo de resistência ideológica, agora se debate com a dura realidade da escassez e da desesperança. A única certeza é que o status quo é insustentável, e o futuro de Cuba dependerá da capacidade de seus cidadãos e de suas instituições em forjar um novo caminho, longe das ruínas do passado.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · The Atlantic — Ideas




