O fotógrafo italiano Andrea Ferro está documentando as últimas "casas-bolha" de Dakar, no Senegal, um conjunto arquitetônico dos anos 1950 que corre risco iminente de demolição. O projeto visa registrar não apenas as formas orgânicas das residências, mas também a vida cotidiana de seus atuais moradores.

Construídas com uma técnica inovadora de concreto projetado sobre balões infláveis, essas estruturas representam um capítulo singular do modernismo tropical. A iniciativa de Ferro, conforme reportado pela revista de design Dezeen, não é apenas um registro nostálgico, mas um alerta sobre a fragilidade do patrimônio arquitetônico diante da pressão do desenvolvimento urbano e da especulação imobiliária.

Uma utopia de concreto

A história das casas-bolha começa no pós-guerra, quando Dakar, ainda sob administração colonial francesa, enfrentava uma grave crise habitacional. A cidade crescia rapidamente, e a demanda por moradias baratas e de construção ágil era urgente. A solução veio do conceito "Airform" do arquiteto americano Wallace Neff: uma técnica que permitia erguer estruturas de concreto de forma rápida e com economia de materiais.

O método foi adotado em larga escala, e Dakar chegou a abrigar a maior concentração mundial dessas casas, com cerca de 1.200 unidades. Elas formavam bairros inteiros, oferecendo uma solução bioclimática, eficiente contra o calor e os ventos marítimos. Hoje, estima-se que restem menos de 100, muitas delas alteradas ou em avançado estado de degradação.

O futuro da memória

A ameaça atual vem de uma combinação de fatores: a especulação por terrenos valorizados, a falta de proteção legal como patrimônio histórico e o desgaste natural das finas cascas de ferrocimento. Para muitos proprietários, demolir ou simplesmente abandonar as estruturas tornou-se o caminho mais fácil diante da complexidade e do custo de uma reforma.

Ferro, que tem formação em arquitetura, acredita que a conscientização é o primeiro passo para a preservação. Ele sugere estratégias como o tombamento de conjuntos específicos, a criação de manuais de reforma acessíveis e a restauração de unidades-piloto. A leitura aqui é que o projeto fotográfico funciona como um catalisador para um debate maior sobre como as cidades lidam com seu passado inovador.

O destino das casas-bolha de Dakar espelha um dilema global: como equilibrar o progresso urbano com a preservação de experimentos que, embora possam parecer obsoletos, carregam lições valiosas sobre design, sustentabilidade e história social. A questão que fica é se há espaço na cidade do futuro para as utopias do passado.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Dezeen