A corrida pela infraestrutura de inteligência artificial nos Estados Unidos começa a cobrar um preço alto das reservas de água em cidades rurais e regiões áridas. Projetos de grande porte, como o campus da QTS no Condado de Fayette, Geórgia, e o complexo Project Blue em Tucson, Arizona, foram alvos de investigações recentes após moradores denunciarem quedas na pressão de água e o uso indevido de recursos hídricos sem a devida autorização municipal.
Segundo reportagem da Fortune, o episódio na Geórgia revelou que a QTS, empresa do grupo Blackstone, consumiu mais de 110 milhões de litros de água por meio de conexões não faturadas. Paralelamente, no Arizona, a desenvolvedora Beale Infrastructure foi flagrada transportando água de um hidrômetro urbano para controle de poeira em um local que a própria prefeitura de Tucson havia recusado atender por preocupações com a escassez de recursos. Estes casos ilustram um padrão crescente de tensão entre o setor de tecnologia e a infraestrutura básica de comunidades locais.
O custo invisível da infraestrutura de IA
A demanda por água é inerente à operação de data centers, que utilizam o recurso para o resfriamento de servidores e controle de umidade. Com a explosão da demanda por processamento de IA, o consumo hídrico destas instalações atingiu patamares alarmantes. A Agência de Proteção Ambiental (EPA) estima que o consumo direto de água pelos data centers americanos, que foi de 66 bilhões de litros em 2023, possa quadruplicar até 2028.
O impacto não é apenas quantitativo, mas estratégico. Em estados como o Texas e o Arizona, onde aquíferos estão sendo exauridos, a instalação de data centers de grande porte coloca o setor industrial em competição direta com o consumo humano e agrícola. A leitura aqui é que a infraestrutura digital, muitas vezes apresentada como imaterial, depende de uma base física que está se tornando cada vez mais escassa e instável em diversas partes do território americano.
Mecanismos de contorno regulatório
Um ponto crítico identificado na análise dos conflitos é a estratégia de construção de data centers em zonas limítrofes às cidades. Ao se instalarem fora dos limites municipais, muitas incorporadoras conseguem contornar leis estaduais rigorosas de garantia de abastecimento hídrico, que exigiriam a comprovação de viabilidade hídrica para os próximos 100 anos.
Essa dinâmica cria um cenário onde as empresas se beneficiam da proximidade com a infraestrutura urbana para obter água, mas evitam a regulação local. Quando falhas de faturamento ou desvios de uso ocorrem, como no caso da QTS, a resposta das autoridades muitas vezes reflete a dependência econômica que essas cidades criaram em relação às grandes empresas de tecnologia, resultando em multas ou acordos que raramente resolvem o impacto estrutural no longo prazo.
Tensões entre crescimento e sustentabilidade
O embate entre o desenvolvimento tecnológico e a preservação de recursos naturais coloca múltiplos stakeholders em posições antagônicas. De um lado, empresas argumentam que o impacto hídrico operacional é mitigado por tecnologias de resfriamento fechado e metas de neutralidade hídrica até 2030. De outro, moradores e grupos ambientalistas apontam que, durante as fases de construção e em cenários de seca severa, como a que afeta atualmente a Geórgia, o consumo industrial é insustentável.
Para o ecossistema brasileiro, o caso serve como um alerta sobre a necessidade de rigor no planejamento urbano e nas licenças de operação para data centers. O Brasil, que possui grandes reservas hídricas, não está imune a crises de abastecimento regionais, e a instalação de infraestrutura de dados exige, desde o início, uma análise de impacto que considere a resiliência das bacias hidrográficas locais sob cenários de mudanças climáticas.
O futuro da governança hídrica
A questão central que permanece em aberto é se o atual modelo de crescimento do setor de data centers é compatível com os limites geológicos das regiões escolhidas para sua instalação. A tendência de moratórias municipais observada em mais de 50 cidades americanas sugere que a aceitação social dessas instalações está diminuindo conforme a escassez de água se torna uma realidade cotidiana para os residentes.
O que se deve observar daqui para frente é a eficácia das novas exigências regulatórias que estados e municípios começarão a impor sobre o setor. A pressão por transparência nos dados de consumo hídrico, antes tratados como segredo comercial por empresas como o Google, deve se intensificar, forçando uma mudança na forma como a indústria de tecnologia comunica seu impacto ambiental.
O conflito entre a sede dos data centers e a necessidade de preservação das reservas hídricas locais parece longe de uma solução definitiva. A medida que a IA continua a demandar mais poder computacional, a infraestrutura física que a sustenta enfrentará um escrutínio cada vez maior por parte de comunidades que, até então, viam apenas os benefícios econômicos dessas instalações.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney





