A expansão contínua do setor de data centers, impulsionada pela demanda por inteligência artificial e serviços digitais, enfrenta um obstáculo cada vez maior: a resistência das comunidades locais. Steven Carlini, vice-presidente de inovação e data center da Schneider Electric, uma fornecedora chave de infraestrutura para esses empreendimentos, observa que, embora a pipeline de negócios da empresa não mostre desaceleração, os operadores precisam urgentemente mudar sua abordagem em relação às licenças e à aceitação pública.
Tradicionalmente, o processo de licenciamento nos EUA envolvia negociações sigilosas com jurisdições locais, deixando os residentes alheios ao impacto real dos projetos. Essa opacidade, segundo Carlini, não é mais sustentável. Relatos indicam que apenas metade da capacidade planejada para 2026 está em construção nos EUA, e a área destinada a novos data centers estagnou. A oposição tem crescido, com grupos pedindo moratórias e até mesmo estados como Nova York impondo paralisações. A escala colossal de alguns projetos, como a instalação da Meta com potencial de 5 GW, e a percepção pública de que data centers são prejudiciais ao meio ambiente, aumentam o consumo de energia doméstica e esgotam recursos hídricos, conforme aponta pesquisa do Pew Research Center, intensificam a pressão por maior transparência.
Transparência como Nova Moeda de Troca
Diante desse cenário, a Schneider Electric argumenta que os operadores de data centers não podem mais operar nas sombras. Carlini enfatiza a necessidade de divulgar abertamente informações cruciais como a origem da energia, o uso de água, as emissões de carbono, a eficiência operacional, os níveis de ruído e as fontes de água. Essas informações, tradicionalmente mantidas em sigilo, são agora vistas como essenciais para obter permissões e, mais importante, para ganhar a confiança das comunidades. A ex-gerente de sustentabilidade hídrica da AWS na Virgínia, que está processando a empresa por supostas declarações enganosas sobre o uso de água, exemplifica as consequências de falhas nessa área.
Engajamento Comunitário: Além do Benefício Econômico
O desafio para os operadores transcende o cumprimento de requisitos regulatórios. Carlini sugere que a estratégia de se apresentar apenas como um benefício econômico para a comunidade — gerando empregos e impostos — tornou-se insuficiente. Em vez disso, as empresas precisam demonstrar um compromisso genuíno com o bem-estar local, explicando como seus projetos podem contribuir positivamente, seja através de acordos de energia renovável, programas de eficiência hídrica ou outros benefícios tangíveis. A percepção de que o uso de serviços como Facebook ou Gmail automaticamente garante a aceitação de um data center vizinho é uma visão ultrapassada. O foco agora deve ser em comunicar ativamente "Aqui está como vamos ajudar", abordando preocupações e destacando vantagens mútuas.
Métricas de Eficiência para a Era da IA
Com o avanço da inteligência artificial, a métrica de desempenho dos data centers também está evoluindo. Carlini prevê uma mudança de ênfase da capacidade de energia bruta para a eficiência de processamento de tokens. Conceitos como "tokens por watt" e "tokens por dólar" podem se tornar os novos padrões de desempenho, oferecendo uma visão mais clara do valor gerado pela infraestrutura de TI, em contraste com a antiga prática de dimensionar data centers puramente pelo consumo de energia. Essa mudança reflete a necessidade da indústria de demonstrar não apenas o consumo, mas também a produção e o valor agregado de suas operações, especialmente em um contexto de escrutínio público crescente.
Perguntas em Aberto e o Caminho Adiante
O futuro da construção de data centers dependerá da capacidade das empresas de navegar por essa complexa teia de regulamentações, expectativas comunitárias e novas métricas de desempenho. A pressão por transparência e engajamento ativo com as comunidades locais parece ser um caminho sem volta. A questão que permanece é quão rapidamente e quão efetivamente os operadores conseguirão adaptar suas estratégias para construir não apenas infraestrutura física, mas também relacionamentos de confiança duradouros. A forma como responderão às preocupações ambientais e sociais determinará a sustentabilidade de sua expansão a longo prazo.
A necessidade de conquistar o apoio da comunidade, em vez de apenas obter licenças, sinaliza uma mudança fundamental na forma como os operadores de data centers devem conduzir seus negócios. A transparência sobre o uso de recursos e um engajamento pró-ativo com os residentes locais são agora componentes essenciais para o sucesso e a sustentabilidade do setor. Com reportagem de Brazil Valley
Source · The Register





