Numa América profundamente dividida, surgiu um consenso improvável: a vasta maioria da população se opõe à construção de novos data centers. Para uma parcela influente do Vale do Silício, a explicação não está nas preocupações legítimas com consumo de energia ou impacto ambiental, mas numa suposta campanha de manipulação orquestrada pela China.

A conveniência da conspiração

A tese, popularizada por investidores como Garry Tan, da Y Combinator, classifica o debate sobre data centers como uma "psyop" (operação psicológica) documentada. O objetivo seria minar a infraestrutura de inteligência artificial dos EUA, garantindo a liderança chinesa. Segundo reportagem do Business Insider, essa narrativa serve como uma cortina de fumaça conveniente. Embora a OpenAI tenha detectado contas ligadas à China tentando gerar conteúdo anti-IA, a própria empresa admitiu não haver evidências de que isso tenha alterado a opinião pública.

O caso do investidor Kevin O'Leary é emblemático: após acusar opositores de seu projeto em Utah de agirem a serviço de Pequim, ele foi forçado a recuar, admitindo não ter "nenhuma evidência". A realidade é que culpar um ator externo é mais fácil do que lidar com o fato de que os cidadãos têm razões concretas para sua oposição, do aumento na conta de luz ao receio sobre o poder desmedido da Big Tech.

Ao apontar o dedo para a China, o setor de tecnologia revela uma dificuldade em aceitar uma nova realidade: seus projetos já não são vistos como universalmente benéficos. A estratégia ecoa a polarização política, onde é mais confortável culpar a desinformação do que confrontar o fato de que concidadãos simplesmente discordam. Enquanto alguns insistem na teoria da conspiração, outros, como a Meta com seu fundo de US$ 1 bilhão para comunidades que hospedam seus data centers, começam a entender que o problema não é de mensagem, mas de substância.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Business Insider