O setor sucroenergético iniciou a safra 2026/27 sob um véu de incertezas, mas as projeções recentes da Datagro indicam um panorama menos desolador do que os temores iniciais sugeriam. Plínio Nastari, presidente da consultoria, aponta que a contenção na expansão do etanol de milho, a maior competitividade do biocombustível brasileiro frente à gasolina e a recuperação nos preços internacionais do açúcar são fatores cruciais para aliviar as pressões sobre o mercado. Contudo, os desafios impostos pelo clima e por uma demanda global ainda em ritmo lento continuam a exigir atenção.
No início da temporada, uma série de "fantasmas" pairava sobre o setor, incluindo o impacto da eletrificação da frota de veículos no consumo de combustíveis, o avanço acelerado do etanol de milho, a estagnação da demanda mundial por açúcar, preocupações com o abastecimento de diesel e a perspectiva de estoques elevados de etanol no Brasil. A análise de Nastari, porém, sugere que a realidade não se alinha com essas projeções mais pessimistas.
A expansão do etanol de milho, um dos principais receios, ficou aquém das expectativas iniciais. Em contrapartida, o etanol hidratado ganhou tração no mercado doméstico, com vendas expressivas em agosto e setembro, superando os 2 bilhões de litros e registrando um crescimento de 2,6% no consumo acumulado desde abril em comparação com o ano anterior. A competitividade do etanol hidratado frente à gasolina também se mostra robusta: em outubro, o biocombustível era mais vantajoso em 64,3% das áreas de consumo, um salto significativo em relação aos 38,6% registrados no mesmo período de 2025.
O potencial de crescimento do consumo de etanol no Brasil ainda é considerável. Atualmente, apenas 31,1% da frota de veículos flex utiliza o combustível hidratado, um patamar inferior ao pico de 40,5% alcançado em 2018. Caso essa participação retorne ao nível anterior, o consumo poderia aumentar em cerca de 700 milhões de litros mensais. Além disso, os estoques de etanol apresentam um suporte aos preços, com volumes menores de hidratado e anidro em comparação com o ano anterior, garantindo cerca de 70 dias de consumo para o hidratado e 63 dias para o anidro.
As condições climáticas no Centro-Sul do Brasil adicionam um elemento de complexidade. Chuvas excessivas têm prejudicado o ritmo de colheita da cana-de-açúcar, com uma média de 28,6 dias perdidos por precipitações, bem acima dos 13,6 dias da média histórica. Esse atraso pode representar uma perda de cerca de 50 milhões de toneladas de cana, além de favorecer problemas fitossanitários que afetam a qualidade da matéria-prima. A Datagro estima a moagem de cana no Centro-Sul em 640 milhões de toneladas, com um mix de produção de açúcar de 46,7%, resultando em 38,4 milhões de toneladas de açúcar, um volume inferior ao da safra anterior.
No mercado internacional, os preços do açúcar apresentaram uma recuperação, evidenciada pela mudança significativa no posicionamento dos fundos no mercado futuro de Nova York, que passaram de uma posição vendida para uma comprada. Apesar da demanda global por açúcar crescer a um ritmo mais lento (1,1% na safra 2026/27, comparado a 2,3% duas décadas atrás), a capacidade do setor brasileiro de alternar o mix de produção entre açúcar e etanol atua como um amortecedor.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Money Times — Mercados





