A artista indiana Dayanita Singh concebeu uma instalação singular em Veneza, fugindo dos altos custos e da complexidade logística da Bienal. Utilizando um espaço de armazenamento pouco conhecido do Archivio di Stato, a artista apresentou fotografias em preto e branco dispostas em estruturas de madeira autoportantes. A iniciativa, batizada de ARCHIVIO, contou com a colaboração de estudantes como guias, em troca de mentoria, o que Singh descreve como parte de uma "economia da amizade". Esta abordagem reflete sua visão de que a arte deve ser acessível e disseminada, contrastando com a tendência de mercado de impressões maiores e edições mais restritas.

O Arquivo Como Identidade

A relação de Singh com os arquivos remonta ao início dos anos 2000, quando, em residência no Isabella Stewart Gardner Museum, em Boston, iniciou sua obsessão por fotografar cadeiras. Essa pesquisa a levou a conhecer historiadores e curadores que a introduziram a diversos arquivos na Itália, como o Corsini Archive, em Florença. Ao longo de uma década, Singh fotografou o Archivio di Stato em Veneza, desenvolvendo uma conexão profunda com o local. A oportunidade de realizar uma exposição ali, cerca de um ano e meio antes da entrevista, foi descrita como um "sonho". A própria artista se considera uma "arquivista", dedicando-se a registrar lugares e pessoas que a atraem, embora reconheça que seu arquivo é intrinsecamente subjetivo. Para a instalação ARCHIVIO, ela escavou seu próprio acervo de vinte e cinco anos, focando em imagens da Itália, para criar uma "cartografia relacional" que, segundo o crítico Andrea Anastasio, captura a centralidade humana e a expansividade do mundo.

A Democratização Pela Fotografia

Um dos pilares do trabalho de Singh é a acessibilidade. A instalação em Veneza abriu um espaço institucional ao público pela primeira vez, rompendo barreiras de acesso. Ela se define como uma "artista offset", não apenas pela técnica de impressão, mas pela ideia de "disseminação". Em contraste com o circuito de arte tradicional, onde exposições em Veneza podem custar centenas de milhares de euros, Singh minimizou despesas através de colaborações, como a parceria com a Universidade Ca’ Foscari para ter estudantes como guias. Ela também questiona a necessidade de iluminação artificial intensa, aceitando fechar a mostra mais cedo se necessário, para não se sentir atrelada aos prazos e exigências da Bienal. Essa autonomia e foco na disseminação são, para ela, a "força da fotografia", permitindo que ela transite por diversas áreas.

O Livro-Objeto e o Futuro da Arte

Singh vislumbra o "wall book" (livro de parede) como o próximo passo para a democratização da arte. Este formato se situa entre uma impressão na parede e um livro na estante, mantendo a essência do objeto-livro, mas permitindo uma exibição mais ampla. Cada "wall book" conteria sessenta imagens com sessenta capas diferentes, incentivando a posse individual e a escolha pessoal, como no seu projeto "Museum of Chance". Ela critica a trajetória do mercado de arte, que tem levado a impressões cada vez maiores, edições menores e preços mais altos, mesmo dentro do mundo da fotografia. Para Singh, a fotografia tem o potencial de democratizar o mundo da arte, mas isso exige repensar as formas de apresentação e acesso, com o "book object" sendo uma das vias para alcançar esse objetivo. A obra ARCHIVIO esteve em exibição no Archivio di Stato, Veneza, de 17 de abril a 31 de julho de 2026.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Aperture