Rafael Steinhauser é um nome central na história da conectividade móvel no Brasil. Como um dos principais executivos da Qualcomm por quase três décadas, ele esteve no centro da “evangelização” da tecnologia CDMA que conectou o país e da criação de um dos braços de corporate venture capital mais bem-sucedidos da região. Hoje, afastado da linha de frente corporativa, sua atenção se volta para fronteiras distintas, mas não menos ambiciosas: reatores nucleares de sal fundido, inteligência artificial na borda e a produção de teatro experimental.
Uma longa entrevista concedida ao portal Startups.com.br revela o fio condutor que une o engenheiro aeroespacial formado em Berlim e o ator de artes cênicas formado em São Paulo. Para Steinhauser, a aparente dicotomia entre tecnologia e arte é falsa. Ambas, em sua visão, compartilham o mesmo propósito: a busca pela vanguarda, por “criar algo que ainda não existe”. É uma tese que redefine sua carreira não como uma série de capítulos distintos, mas como a aplicação contínua de um mesmo princípio em diferentes domínios.
A fronteira como vocação
Para entender os projetos atuais de Steinhauser, é preciso revisitar seu papel na transformação do mercado brasileiro de telecomunicações nos anos 1990. Chegando ao país em 1996, sua missão era introduzir a tecnologia CDMA (Code Division Multiple Access) da Qualcomm em um mercado que se inclinava para o padrão concorrente, o TDMA. O trabalho, que ele descreve como “evangelizar o mercado”, envolvia não apenas vender uma tecnologia superior, mas construir um ecossistema. Isso incluiu a instalação da primeira fábrica de celulares da Qualcomm fora dos EUA e a participação ativa na privatização da Telebrás, vencendo licitações para as chamadas “empresas-espelho”.
Essa mentalidade de construtor de ecossistemas se manifestou de forma ainda mais clara anos depois, com a criação do Qualcomm Ventures na América Latina. Sob sua liderança, o fundo de CVC realizou investimentos seminais em startups que se tornariam pilares da nova economia digital brasileira, como 99, Loggi e QuintoAndar. O movimento antecipou uma tendência e formou uma geração de empreendedores. Em paralelo, Steinhauser articulou uma parceria com o BNDES para criar um fundo de R$ 60 milhões focado em Internet das Coisas (IoT), gerido pela Indicator Capital, um movimento incomum que uniu uma gigante de tecnologia americana a um banco de fomento brasileiro e que hoje administra mais de R$ 330 milhões.
A próxima vanguarda
Desde que deixou a vida corporativa em 2020, Steinhauser aplicou essa mesma lógica a um novo portfólio de interesses. Ele foi cofundador da Alpha Capital, a SPAC que realizou a fusão com a Semantix, e hoje atua como presidente executivo da Trocafone, focada em economia circular de eletrônicos. Contudo, são seus projetos mais especulativos que melhor ilustram sua busca contínua pela fronteira. Um deles é a EDGY, uma iniciativa que busca descentralizar o processamento de inteligência artificial, movendo a inferência para a borda (edge) e desafiando a concentração de poder computacional em poucos data centers globais — uma questão de soberania e eficiência energética.
O outro projeto, ainda mais embrionário, envolve reatores nucleares de sal fundido (MSR), uma tecnologia que promete geração de energia mais segura, eficiente e com menos resíduos. Steinhauser vê no Brasil, com suas reservas de tório, um potencial para liderar essa nova cadeia industrial. A aposta, embora de altíssimo risco e longo prazo, se alinha perfeitamente com sua biografia: identificar uma tecnologia transformadora e começar a construir as bases para sua implementação. É o mesmo instinto que o levou a investir em teatro experimental, que ele vê como um laboratório para explorar as tensões da sociedade contemporânea, da IA à desigualdade, por meio de uma linguagem que a tecnologia não alcança: a emoção.
Para Steinhauser, o engenheiro e o ator não são personas conflitantes, mas complementares. Um constrói com a lógica e a razão; o outro, com o corpo e o sentimento. A trajetória do executivo sugere que, para realmente criar o futuro, talvez seja preciso dominar as duas linguagens. Seu percurso oferece uma leitura sobre um tipo de liderança que não se contenta em otimizar o presente, mas se dedica a materializar futuros possíveis, seja em um palco ou em um reator.
Com reportagem de Brazil Valley
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