A revista Time divulgou sua lista anual das 100 pessoas mais influentes em inteligência artificial, um termômetro que, em sua mais recente edição, aponta para uma notável dispersão do poder no setor. A relação, que não opera como um ranking, divide os nomes entre as categorias de Líderes, Inovadores, Formadores e Pensadores.

Se a presença de figuras como Sam Altman (OpenAI), Elon Musk (xAI) e os irmãos Amodei (Anthropic) era esperada, a verdadeira notícia está na diversidade de perfis que completam a lista. A inclusão de uma ativista brasileira, ao lado de atores de Hollywood, sinaliza a maturação do campo: a influência em IA já não é monopólio de quem escreve o código, mas também de quem molda suas aplicações e consequências sociais.

Para além dos fundadores

A própria arquitetura da lista da Time é um editorial. Ao criar categorias como “Shapers” (Formadores) e “Thinkers” (Pensadores), a publicação formaliza que o debate sobre IA deixou de ser puramente técnico para se tornar cultural e político. A presença de nomes como o ator Ben Affleck e Joseph Gordon-Levitt, que atuam em coalizões para proteger criadores, evidencia que a tecnologia é agora uma força que reconfigura indústrias criativas e mercados de trabalho, exigindo novas formas de governança e ativismo.

Essa expansão do mapa da influência é um reconhecimento de que os maiores desafios da IA não são apenas computacionais. As questões mais urgentes envolvem ética, regulação, distribuição de poder e o impacto da tecnologia em comunidades específicas. A lista sugere que as respostas para esses dilemas não virão apenas dos laboratórios de pesquisa do Vale do Silício, mas de um ecossistema muito mais amplo e heterogêneo.

O ativismo como fronteira

A inclusão da brasileira Veronyka Gimenes, cofundadora da organização Código Não Binário, na categoria de “Pensadores” é particularmente emblemática. Gimenes foi reconhecida por seu trabalho na criação da TybyrIA, um modelo de IA de código aberto treinado para identificar discurso de ódio contra a comunidade LGBTQIA+ em português. O projeto não apenas aborda um problema social concreto, mas o faz com uma ferramenta aberta, oferecendo um contraponto ao modelo fechado e comercial das grandes corporações de tecnologia.

A escolha destaca uma tese poderosa: uma das fronteiras mais relevantes da IA hoje é o seu uso por e para comunidades marginalizadas. Enquanto as Big Techs focam em ganhos de escala e performance, iniciativas como a de Gimenes demonstram o potencial da tecnologia para ações de nicho, com impacto social direto e localizado. É a prova de que a inovação em IA também pode ser um ato de resistência e afirmação.

A lista da Time funciona, portanto, como um retrato do presente e um mapa para o futuro. A influência em inteligência artificial está se tornando menos sobre a capacidade de construir o maior modelo de linguagem e mais sobre a habilidade de articular uma visão para seu uso. O poder está em disputa, e os novos jogadores não vêm apenas da tecnologia.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney