O conselho municipal de La Puebla de Montalbán, uma pequena cidade na província de Toledo, na Espanha, deu o sinal verde para um movimento longamente planejado: solicitar ao governo central o selo de Festa de Interesse Turístico Nacional para o seu Festival Celestina. A aprovação, que segundo a Forbes España culmina um esforço de mais de três anos e quatro tentativas de votação, ocorre durante a 28ª edição do evento, que celebra o legado literário de Fernando de Rojas, autor de "A Celestina" e filho ilustre da cidade.

À primeira vista, a notícia pode parecer uma formalidade paroquial. No entanto, ela encapsula uma tese poderosa sobre desenvolvimento regional: a conversão deliberada de patrimônio cultural em um ativo econômico estratégico. O que La Puebla de Montalbán está fazendo é tentar formalizar e escalar o impacto de um evento que cresceu organicamente, com base na paixão de mais de 150 voluntários, para transformá-lo em um motor para a economia local. É uma jornada com paralelos e lições valiosas para inúmeros municípios brasileiros, ricos em cultura mas carentes de estratégia.

A economia da tradição

A busca pelo selo nacional não é um fim em si, mas um meio. Para a prefeita Soledad de Frutos, o festival "chegou a um ponto em que precisa avançar". Essa declaração revela a transição de um projeto de paixão para uma política de desenvolvimento. O selo funciona como uma alavanca que destrava acesso a canais de promoção mais amplos, atrai um turismo de maior qualidade e, potencialmente, novas fontes de financiamento. É o reconhecimento de que, após 28 anos, o valor cultural do festival precisa ser traduzido em valor econômico mensurável.

O processo para chegar até aqui expõe as dificuldades inerentes a essa transição. Um dos requisitos mais complexos, segundo a reportagem, foi comprovar o impacto em mídia de alcance nacional — o clássico dilema de precisar ser relevante para obter um selo que confere relevância. A iniciativa espanhola demonstra que a construção desse capital simbólico e econômico é um jogo de longo prazo, que exige documentação rigorosa, persistência política e, acima de tudo, uma base comunitária sólida que sustente o projeto durante as décadas de maturação.

O modelo e seus desafios

O caso de La Puebla de Montalbán oferece um roteiro para o Brasil, onde festivais como a FLIP, em Paraty, ou eventos folclóricos e religiosos demonstram o mesmo potencial. A diferença, muitas vezes, está na institucionalização da estratégia. A cidade espanhola não está apenas celebrando sua cultura; está a empacotando em um dossiê para o Ministério da Indústria e Turismo, tratando-a como um produto com potencial de mercado.

O objetivo, como destaca a prefeitura, é que o festival sirva como uma "porta de entrada" para o resto do ano, impulsionando hotelaria, comércio e serviços de forma perene. O desafio, contudo, é escalar sem perder a alma. A transição de um evento comunitário para um produto turístico nacional carrega o risco de pasteurização, afastando os próprios voluntários e a autenticidade que o tornaram especial. O equilíbrio entre preservar a herança e vendê-la é a corda bamba sobre a qual caminham todas as iniciativas de economia da cultura.

O percurso do Festival Celestina, de homenagem literária a projeto de desenvolvimento, é um lembrete de que capital cultural é um recurso potente. A aprovação da candidatura não é a linha de chegada, mas o início de uma nova fase, onde a gestão estratégica se torna tão importante quanto a paixão que deu origem a tudo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España