Antes de ser um romancista publicado pela Henry Holt, Chad Fore era “Silky Chad”. O apelido, longe de ser um nome de guerra escolhido para impor respeito, foi uma sentença. No estúdio improvisado de seus amigos — um closet forrado com caixas de ovos —, o veredito veio de Mikey, o rapper mais talentoso do grupo: “Seu nome vai ser Silky Chad. Você não vai ser C-4, vai ser Silky Chad.” Fore, que sabia cantar mas queria ser rapper, sentiu o peso da alcunha. Era o garoto que se dava bem na escola, jogava basquete e tinha uma voz suave demais para o rap “gangster” que dominava a cena de sua cidade no sul da Califórnia.

Essa tensão entre a identidade desejada e a realidade imposta é o motor de sua ficção e foi o tema de uma longa conversa com a Paris Review sobre seu conto “Lil Spooky”. A história, semiautobiográfica, acompanha a iniciação de um jovem em uma gangue local e seu braço musical, o Sick Minded Clique. Para Fore, a ficção é uma forma de escavar um passado complexo, onde a atração pelo perigo e a busca por validação artística se confundiam. Aquele mundo, que ele hoje observa de sua vida atual no Arizona, era regido por uma lógica própria. “Gângsteres eram as pessoas mais legais. Eram os mais populares. Conseguiam todas as garotas. Todos os admiravam ou viviam com medo deles”, relembra. A arte, nesse ecossistema, era um espelho da vida — ou pelo menos deveria ser.

O rito de passagem

A máxima no estúdio de seu primo era clara: “Temos que viver isso. Temos que viver a vida se estamos fazendo rap sobre ela.” Essa era a barreira de entrada, a demanda por uma autenticidade que Fore, o bom aluno, sentia não possuir. Enquanto seus colegas narravam a violência das ruas, ele construía versos sobre o assassinato de Franz Ferdinand, uma referência histórica que pairou no ar do estúdio como um corpo estranho. A reação foi um olhar de soslaio, uma pergunta silenciosa: “Do que você está falando?”. A expectativa era outra. Era preciso narrar o “não há paz nessas ruas” de forma visceral, não intelectual.

Essa busca por legitimidade permeia o conto “Lil Spooky” e a própria memória de Fore. Ele descreve o processo de iniciação na cultura de gangues com uma frase que encapsula a transição da fantasia para a consequência: “Era tudo fingimento até o momento em que deixou de ser.” É nesse ponto de inflexão, quando a pose se torna realidade e não há mais volta, que reside o drama. A música, para muitos, era a promessa de uma saída. Grupos como Cypress Hill, Delinquent Habits e artistas regionais como Lil Rob mostravam que era possível transformar a crônica local em arte com alcance. Mas a competição era feroz e a janela de oportunidade, minúscula.

Da bravata à vulnerabilidade

Na adolescência, Fore era um colecionador de rimas. Consumia os “rapper’s rappers” da Costa Leste — Chino XL, Black Thought, GZA — artistas cuja técnica e complexidade lírica o fascinavam. Eram os mestres do “wordplay, poison darts” (jogo de palavras, dardos envenenados), como descreve em seu conto. Essa obsessão com a forma, no entanto, contrastava com um vácuo emocional que ele só viria a entender mais tarde. O hip-hop de sua juventude, focado na bravata e na demonstração de força, não oferecia espaço para a vulnerabilidade. “Eu não queria sentir medo, então queria música que não tivesse medo”, afirma.

Foi na ficção literária que ele encontrou esse espaço. A transição do rap para a prosa foi uma busca pela outra metade da vida, aquela que envolve “estar sozinho com a perda ou a vulnerabilidade”. Se o rap era sobre construir um “ethos” de invencibilidade, a literatura permitia explorar o “pathos” da condição humana. É uma jornada espelhada por alguns de seus próprios ídolos, como o Bone Thugs-N-Harmony, que passaram do rap sobre violência explícita para a melancólica “Tha Crossroads”, uma canção sobre luto que sua irmã não conseguia ouvir de tão triste. Era a arte alcançando o que Tomás de Aquino, citado por Fore, chamaria de “radiância”: algo que, além da harmonia e da técnica, brilha com a luz de outro mundo — o mundo interior do artista.

O segundo CD do grupo de seu primo, que se chamaria From Struggle Comes Hustle, nunca foi finalizado. As músicas, fruto de incontáveis horas no estúdio improvisado, se perderam. “O que acontece com essas coisas? Ficam ao vento”, reflete Fore. Para ele, a música foi um portal para a cultura; para outros, era para ser a passagem de saída. No fim, quase ninguém conseguiu sair. A diferença é que Chad Fore, o “Silky Chad”, encontrou outra forma de contar a história, transformando os versos que não couberam no rap em uma literatura que ressoa com a verdade daquela juventude perdida.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Paris Review Blog