O estúdio independente NEON, que levou "Parasita" à América do Norte, divulgou o primeiro trailer de "Artificial", filme que dramatiza a crise de liderança na OpenAI em novembro de 2023. Dirigido por Luca Guadagnino e estrelado por Andrew Garfield no papel de Sam Altman, o longa tem estreia prevista para o Natal nos Estados Unidos.

Mais do que um simples relato corporativo, o trailer sugere um thriller psicológico focado na persona de Altman. A cena central se passa em um suposto "bunker do apocalipse", uma referência direta ao hobby de "preparação" do CEO, detalhado em um perfil da New Yorker de 2016. A escolha de focar nesse elemento quase mítico indica a tese do filme: esta é a mais recente tentativa de Hollywood de decifrar — e talvez julgar — os arquitetos do nosso futuro digital.

A fábrica de mitos

A escalação de Andrew Garfield não é coincidência. O ator interpretou o cofundador do Facebook, Eduardo Saverin, em "A Rede Social" (2010), filme que cristalizou a imagem de Mark Zuckerberg para uma geração. Assim como a obra de Aaron Sorkin, "Artificial" parece interessado em transformar complexas disputas de poder em dramas pessoais, criando heróis e vilões a partir de figuras públicas. O bunker, com suas paredes forradas de armas e suprimentos, funciona como uma poderosa metáfora visual para a mistura de messianismo e paranoia que parece permear o alto escalão do Vale do Silício.

Esses filmes não inventam do zero; eles amplificam a realidade. A narrativa se alimenta das próprias declarações de Altman, que ora admite ter "armas, ouro, potássio" e ora minimiza seu refúgio como um simples "porão reforçado". Ao dramatizar essa ambiguidade, o cinema assume o papel de intérprete cultural, moldando a percepção pública de uma forma que os próprios executivos não conseguem controlar.

Arte, negócio e IA

O filme chega em um momento em que o debate sobre o poder e os riscos da inteligência artificial está no centro da pauta global. Ao focar na rivalidade entre Altman e Ilya Sutskever — o cofundador que liderou sua deposição —, "Artificial" humaniza uma revolução tecnológica que, para muitos, soa abstrata e distante. A disputa de egos e visões de mundo no conselho da OpenAI vira um enredo sobre ambição e traição.

A trajetória do projeto também oferece um meta-comentário sobre a indústria. O filme foi inicialmente abandonado pela Amazon MGM Studios, que meses antes havia anunciado um investimento bilionário na própria OpenAI, e depois resgatado pela NEON, um estúdio com pedigree no cinema de arte. A escolha sugere uma abordagem mais crítica e autoral, longe de um retrato chapa-branca da inovação.

"Artificial" provavelmente não será a palavra final sobre a OpenAI ou Sam Altman. Mas, assim como "A Rede Social" fez com o Facebook, tem o potencial de fixar a imagem de uma nova geração de líderes tecnológicos no imaginário popular. O filme transforma o CEO em personagem e o bunker, em cenário. Resta saber se o retrato será de um visionário ou de um Ozymandias da era digital.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Business Insider