O caminho de um escritor, muitas vezes, é pavimentado com primeiras versões que, embora necessárias, carecem do brilho que a história final virá a ter. Deesha Philyaw, em artigo para a Lit Hub, compartilha o processo de transformação de sua própria obra, revelando como superou o que chama de "first-draft-itis", uma condição auto-diagnosticada que aflige narrativas com baixo ou nenhum conflito. A experiência com seu romance de estreia, "The True Confessions of First Lady Freeman", serve como estudo de caso para elevar o nível da ficção.
A Curadoria do Conflito
Philyaw relata que, ao compartilhar as primeiras páginas de seu romance com uma amiga, recebeu um feedback contundente: a história era "ok, mas meio chata". A personagem principal, Rebecca, uma mulher de 35 anos recém-divorciada, estava apenas co-parentando e saindo com outras pessoas. A amiga apontou a ausência de um elemento crucial: o casamento que Rebecca havia deixado para trás. A autora, recém-saída de uma união infeliz, relutava em revisitar o tema. No entanto, a crítica ressaltou uma verdade fundamental: para que uma narrativa prenda o leitor, é preciso haver algo em jogo, algo que a personagem tenha a perder. A falta de riscos significativos deixava Rebecca em uma posição vulnerável, sem um drama que sustentasse a trama.
Elevando as Apostas Narrativas
A solução encontrada por Philyaw foi reintroduzir a personagem em seu casamento, transformando-a na esposa de um pastor de megachurch. Essa mudança elevou drasticamente as apostas. O status social, a respeitabilidade e os bens materiais de uma "first lady" de uma igreja proeminente estavam em risco, conferindo à trama um peso dramático considerável. Contudo, a autora percebeu que a mera presença de riscos não era suficiente se a personagem não desejasse o que tinha. A solução foi introduzir um novo objetivo: o concurso "First Lady USA". Ao mudar a perspectiva de Rebecca para Scharisse, uma personagem que apreciava o papel de "first lady", mas enfrentava ostracismo por não ter o "pedigree" adequado, Philyaw criou um novo motor narrativo. Scharisse almejava aceitação e vitória no concurso, adicionando camadas de ambição e vulnerabilidade à sua jornada.
O Timing e a Complexidade Humana
Além de definir o que os personagens querem e o que podem perder, Philyaw enfatiza a importância do timing narrativo. Ajustar o cronograma da história, como avançar ou recuar no tempo, pode intensificar os desafios e complexidades. No caso de "The True Confessions of First Lady Freeman", a filha da protagonista, Gabrielle, foi envelhecida de cinco para quinze anos. Essa alteração teve implicações significativas, pois um escândalo público e um casamento conturbado afetam de maneira distinta uma adolescente e uma criança. A autora também ressalta a necessidade de evitar extremos na caracterização: personagens "bons" devem possuir falhas e nuances, enquanto os "vilões" podem apresentar complexidade e contradições. Essa abordagem humaniza a narrativa, tornando-a mais crível e envolvente, e evita a criação de figuras unidimensionais.
O Que Fica em Aberto
A reflexão de Philyaw sobre o processo criativo sublinha que a essência de uma boa história reside na capacidade de criar e gerenciar o conflito. A percepção de que "se nada importava, então eu não tinha uma história" é um lembrete poderoso para escritores. Ao dar aos personagens desejos claros, algo substancial para perder e ao situá-los em um contexto temporal e psicológico bem definido, a narrativa ganha força. A ausência de perfeição ou maldade caricatural, e a introdução de elementos que desafiam as expectativas, são ferramentas essenciais para transformar um rascunho inicial em uma obra cativante. A jornada de Scharisse-Rebecca exemplifica como a atenção a esses detalhes pode dar vida a uma história.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Lit Hub





