O ar no Sculpture Court do Barbican Centre, em Londres, mudou. Onde antes imperava o silêncio austero e a geometria rígida do concreto pós-guerra, agora circula o perfume de cravo e canela, misturado à umidade densa da terra fresca. Com a inauguração de 'Origo', a artista colombiana Delcy Morelos não apenas instalou uma obra de arte; ela transplantou um pedaço vivo de seu território para o coração urbano britânico. Caminhar pelos túneis de argila, feno e sementes é sentir o peso da história e a pulsação do solo, uma experiência que convida o visitante a desacelerar o passo e reconhecer a matéria que nos sustenta.
O contraste entre a terra e o concreto
A escolha do Barbican como palco para esta intervenção não é casual. O complexo, projetado por Chamberlin, Powell e Bon, personifica o brutalismo em sua forma mais ambiciosa: uma utopia de ordem, estrutura e permanência. Ao inserir uma massa orgânica, porosa e mutável em um ambiente que historicamente resiste à natureza, Morelos estabelece um diálogo tenso e necessário. Enquanto o concreto busca a imutabilidade, a instalação de Morelos aceita o tempo, o cheiro e a degradação como componentes vitais da existência.
Esta não é a primeira vez que a artista utiliza materiais terrosos para subverter espaços institucionais, mas a escala aqui é singular. Com 24 metros por 18 metros, a estrutura ovular funciona como um corpo — um abrigo que protege e, ao mesmo tempo, exige entrega sensorial. O uso de especiarias, além de sua função olfativa, atua como conservante natural, garantindo que o solo permaneça ativo durante os meses de exposição. É um gesto de cuidado que revela a filosofia da artista: a arte como um organismo que exige manutenção e respeito, tal qual a própria terra.
Ancestralidade como matéria-prima
Nascida em Tierralta, região colombiana marcada por conflitos armados e deslocamentos forçados, Morelos carrega em sua trajetória uma compreensão da terra que transcende a estética. Para ela, o solo é um arquivo de memórias, um repositório de violências e, paradoxalmente, de resiliência. Sua prática, profundamente enraizada em cosmovisões andinas e amazônicas, propõe que a separação entre o humano e o ecossistema é uma construção artificial e perigosa. Ao trazer essa visão para Londres, a artista força o público a confrontar a desconexão moderna com o chão que pisamos.
O ambiente escuro e envolvente criado no Barbican funciona como um útero, onde o som da cidade é abafado e a percepção do tempo é alterada. Ali, a rigidez do brutalismo é suavizada não pela decoração, mas pela presença visceral da matéria bruta. É um convite para que o espectador entenda que a resiliência não reside apenas na dureza das estruturas, mas na capacidade de adaptação e na memória contida nas camadas do solo.
A reativação do espaço público
O projeto também cumpre uma função cívica, reativando o Sculpture Court após quase uma década de inatividade. O espaço, concebido originalmente para integrar a arte ao cotidiano dos residentes do Barbican, ganha uma nova camada de propósito. Morelos transforma o local em um ponto de encontro onde a arte não é um objeto a ser observado, mas um ambiente a ser habitado. Essa proposta desafia a noção de galeria como um espaço neutro e asséptico, substituindo-a por uma experiência tátil que evoca a coletividade.
Ao fundir a política da terra com a estética da instalação, a artista evita o didatismo. Ela prefere que as implicações de seu trabalho — a extração, o colonialismo, o cuidado e a espiritualidade — sejam sentidas pelo corpo antes de serem processadas pelo intelecto. O Barbican, com seus corredores labirínticos, torna-se o cenário perfeito para essa imersão, onde o público é forçado a abandonar a pressa urbana em favor de uma contemplação quase meditativa.
O futuro da paisagem urbana
O que resta após a passagem por 'Origo' é a dúvida sobre como olharemos para nossas cidades após o encerramento da mostra. A intervenção de Morelos deixa uma marca que vai além do período de visitação, questionando a forma como construímos nossos espaços de convivência. Se o concreto é a pele da modernidade, a terra de Morelos é o lembrete de que, sob cada pavimento, existe um sistema vivo, complexo e ignorado que continua a existir, independente de nossas ambições arquitetônicas.
À medida que as luzes mudam e o aroma das especiarias se dispersa pelos corredores brutalistas, fica a reflexão sobre o que estamos dispostos a preservar. Será que a arquitetura do futuro conseguirá integrar essa porosidade, ou continuaremos a ver o solo apenas como o suporte imóvel para nossas construções? A resposta, talvez, esteja na forma como escolhemos habitar o agora, entre a solidez das paredes e a fragilidade do pó.
Com reportagem de Designboom
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