Em um movimento estratégico para as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, o Partido Democrata tem empregado a guerra do Irã como uma arma política afiada contra seus oponentes republicanos. A tática, que ganhou força desde a primavera, consiste em vincular os votos de legisladores republicanos — ou de candidatos que nunca ocuparam cargo no Congresso — sobre resoluções de poderes de guerra a questões de custo de vida, como o aumento dos preços de combustíveis e alimentos. A Associated Press analisou dados de anúncios televisivos veiculados entre 1º de setembro e 14 de outubro em corridas eleitorais acirradas, revelando que pelo menos metade das 50 disputas mais competitivas apresentaram anúncios com temática iraniana. Cerca de 42 milhões de dólares foram estimados em gastos com esses anúncios, que foram exibidos mais de 43.000 vezes. A maioria desses anúncios, 61 de 65 identificados, focou em mensagens sobre o custo de vida para as famílias.

O Enquadramento Democrata: Guerra e Inflação

A estratégia democrata busca capitalizar a impopularidade da guerra e a preocupação generalizada com a inflação. Em estados como Wisconsin, Nebraska e Iowa, candidatos democratas e grupos de apoio têm veiculado anúncios que acusam republicanos de apoiarem uma guerra custosa que, segundo eles, contribui diretamente para o aumento dos preços. Um exemplo é a campanha em Wisconsin, onde um narrador critica o congressista Derrick Van Orden por ter "votado pela custosa guerra do Irã e pelo aumento dos preços da gasolina". Similarmente, em Nebraska, Chris Backemeyer alega que Mike Flood "abriu as comportas" ao votar em tarifas e na guerra do Irã, elevando os preços de bens essenciais. A associação entre a política externa e o bolso do eleitor é clara: os democratas pintam os republicanos como irresponsáveis fiscalmente e alinhados a políticas que prejudicam a economia familiar, mesmo que os votos em questão tenham tido pouco efeito prático. O objetivo é forçar os republicanos a se posicionarem e, em seguida, explorar essas posições em anúncios de campanha, associando-os a Donald Trump e a uma agenda que, segundo os democratas, agrava os problemas econômicos.

A Resposta Republicana: Ignorar e Contra-atacar

Do lado republicano, a estratégia predominante tem sido a de ignorar a temática da guerra do Irã em suas próprias campanhas publicitárias. Especialistas republicanos, como Ron Bonjean, sugerem que o foco deve ser em explorar as fraquezas dos oponentes democratas e mobilizar a própria base eleitoral. "Falar sobre a guerra do Irã não é uma mensagem vencedora, porque você está jogando no campo do Partido Democrata", afirma Bonjean. Os temas centrais da publicidade republicana, desde 1º de setembro, têm sido impostos, crime, caráter, saúde e imigração. Alguns republicanos têm buscado se distanciar do conflito, como o senador de Michigan, Mike Rogers, que declarou que "a guerra com o Irã precisa acabar rapidamente". Sua oponente democrata, Abdul El-Sayed, tem explorado essa questão, afirmando que bilhões de dólares diários são gastos em uma guerra "que não temos negócio em lutar". Em Maine, a senadora Susan Collins enfatizou ter votado nove vezes para encerrar o conflito, enquanto seu desafiante democrata, Troy Jackson, a acusa de ter votado cinco vezes para que a guerra acontecesse. Essa dicotomia de abordagens reflete a polarização do debate e a dificuldade dos republicanos em defender posições que possam ser exploradas pelos democratas.

Votos e Divisões Internas no Congresso

O Congresso dos EUA tem realizado votações sobre resoluções que visam deter ou restringir ações militares contra o Irã. O Senado votou 14 vezes sobre o tema, enquanto a Câmara dos Representantes realizou seis votações desde o início do conflito em fevereiro. Em uma das votações mais recentes na Câmara, sete republicanos se alinharam aos democratas para votar pelo fim da guerra. Entre eles, quatro republicanos concorrem à reeleição em distritos altamente competitivos: Tom Barrett (Michigan), Brian Fitzpatrick (Pensilvânia), Mariannette Miller-Meeks e Zach Nunn (Iowa). Enquanto Barrett e Fitzpatrick já haviam votado anteriormente para remover as tropas americanas, os votos de Miller-Meeks e Nunn representaram a primeira vez que ambos se posicionaram contra a continuação do conflito, refletindo uma crescente fadiga com a guerra e uma possível adaptação às pressões eleitorais e à opinião pública. Essa divisão interna no Partido Republicano demonstra a complexidade do tema e a dificuldade em manter uma frente unida em relação à política externa em um ano eleitoral.

O Epicentro da Disputa e Implicações para o Futuro

Embora os anúncios sobre a guerra do Irã representem cerca de 5% do total de inserções televisivas nas corridas competitivas, a concentração em alguns distritos é notável. Na Califórnia, o 48º Distrito Congressional, na área de San Diego, viu cerca de um terço dos anúncios veiculados abordarem o Irã. Democratas como Marni von Wilpert têm explorado declarações de republicanos como Jim Desmond, que disse "sem dor, sem ganho" em relação aos preços mais altos, associando-as ao sofrimento das famílias. Em contrapartida, Desmond e o Comitê Nacional Republicano do Congresso responderam com anúncios que criticam von Wilpert por aumento de impostos. Outras áreas com alta concentração de anúncios sobre o Irã incluem o 2º Distrito Congressional da Virgínia e o 2º Distrito Congressional do Maine. A prevalência desses anúncios sugere que a guerra do Irã, mesmo que indiretamente, se tornou um ponto de atrito significativo nas eleições de meio de mandato, servindo como um proxy para debates mais amplos sobre economia, liderança e a influência de figuras como Donald Trump. A forma como esses temas continuarão a ser explorados e respondidos definirá, em parte, o resultado dessas disputas cruciais.

O uso da guerra do Irã como ferramenta eleitoral destaca a capacidade dos democratas de conectar questões de política externa a preocupações domésticas imediatas. A estratégia, embora controversa, parece ter encontrado um eco em um eleitorado preocupado com a economia, forçando os republicanos a navegar em um terreno político complexo e, por vezes, desconfortável. A eficácia a longo prazo dessa tática, contudo, dependerá da capacidade de ambos os partidos de manterem o foco e de se adaptarem a um cenário eleitoral em constante mutação.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune