O programa Desenrola 2.0 consolidou-se como um dos principais ativos políticos do governo Luiz Inácio Lula da Silva na tentativa de reverter o desgaste de sua gestão. Segundo a pesquisa Genial/Quaest, divulgada nesta terça-feira (10), metade dos brasileiros avalia a iniciativa de renegociação de dívidas como uma boa ideia, um indicador que acompanha o movimento de recuperação da popularidade presidencial.

O levantamento mostra que 61% dos entrevistados já ouviram falar da nova versão do programa, um avanço em relação aos 57% registrados em março. Esse aumento na visibilidade ocorre em um momento em que a aprovação do presidente Lula alcança 47%, reduzindo a distância para a desaprovação a apenas um ponto percentual, sinalizando uma estabilização após meses de oscilação negativa.

O impacto na percepção econômica

A eficácia política do Desenrola está intrinsecamente ligada à melhora da percepção financeira das famílias. Dados da pesquisa indicam que a parcela de brasileiros que relata ter "muitas dívidas" caiu de 28% em maio para 23% em junho. Entre as famílias com renda de até dois salários mínimos, o recuo foi ainda mais expressivo, caindo de 32% para 23% no mesmo período.

Embora apenas 10% dos entrevistados afirmem ter sido beneficiados diretamente pelo programa, o efeito entre esse grupo é notável: 71% relatam melhora na renda familiar. Esse dado sugere que, para o governo, o Desenrola funciona menos como uma política de massa universal e mais como uma ferramenta de alívio pontual que gera um impacto positivo na percepção de bem-estar econômico dos segmentos mais vulneráveis.

Dinâmica política e o eleitor independente

O apoio ao Desenrola transcende a base tradicional petista, sendo um ponto de convergência importante entre eleitores independentes. Nesse segmento, considerado decisivo para o pleito de 2026, 51% aprovam a iniciativa. O fato de o programa atrair apoio de eleitores de centro e até de parcelas da direita não bolsonarista indica que a pauta econômica, quando focada em alívio direto de endividamento, possui um apelo transversal.

A estratégia de comunicação do Planalto parece ter encontrado no Desenrola um contrapeso eficaz para outras tensões políticas. Ao alinhar a agenda de consumo com medidas de redução de preços de combustíveis e ajustes tributários, como o fim da taxa sobre importações de baixo valor, o governo consegue pautar o debate público em torno de temas que afetam diretamente o orçamento doméstico.

Tensões e desafios de longo prazo

As implicações futuras residem na sustentabilidade desse apoio em um cenário de incertezas macroeconômicas. Se por um lado o programa ajuda a reduzir o endividamento das famílias, por outro, a eficácia política depende da manutenção da percepção de que o governo é o agente direto dessa melhora. A disputa narrativa com a oposição permanece intensa, especialmente em temas de política comercial externa.

Para o ecossistema econômico, a redução da inadimplência é um movimento positivo, mas a longevidade do apoio ao governo dependerá de como essas medidas de alívio se traduzem em emprego e renda real nos próximos meses. O sucesso do Desenrola coloca o governo em uma posição mais confortável para negociar outras reformas, mas o desafio de manter a aprovação acima da casa dos 50% exige entregas constantes.

O horizonte de 2026

O que permanece incerto é se a melhora na percepção financeira será suficiente para sustentar a popularidade caso a inflação ou o desemprego apresentem novas pressões. O monitoramento contínuo dessas iniciativas será fundamental para entender se o Desenrola é um fenômeno de curto prazo ou uma base duradoura de suporte político.

O cenário sugere que o governo seguirá apostando em programas de impacto direto na ponta, priorizando a visibilidade de medidas que ofereçam alívio imediato às famílias. A capacidade de traduzir essas ações em votos dependerá de como a economia real se comportará diante dos desafios fiscais que o país ainda enfrenta.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney