Em Francisco Santos, um município de 8.237 habitantes no sudeste do Piauí, a ausência de qualquer forma de imprensa local profissional ou comunitária configura o que o Atlas da Notícia, do Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo (Projor), define como um deserto de notícias. Para os moradores, a informação sobre o que acontece na cidade, especialmente em períodos eleitorais, se resume ao boca-a-boca, aplicativos de mensagens e redes sociais. Antes da internet, a dependência era de associações, sindicatos e igrejas, enquanto santinhos, carros de som e comícios dominavam as campanhas. Embora essas ferramentas ainda existam, elas não substituem o papel fiscalizador e informativo do jornalismo.

Milanez, 62 anos, agricultor e radialista comunitário, observa que a comunicação digital rompeu fronteiras, mas a notícia local, em muitos lugares, não circula. Ele lamenta o fechamento de uma rádio comunitária em Francisco Santos por falta de outorga, um problema comum que impede a existência de veículos independentes. A dificuldade em obter autorização, regida pela Lei nº 9.612/1998, deixa municípios inteiros sem voz própria, forçando a busca por informações em rádios de cidades vizinhas ou, mais recentemente, nas redes sociais e sites da prefeitura, que, apesar de úteis para serviços, não se equiparam ao jornalismo investigativo.

A Extensão do Problema

O Atlas da Notícia de 2025 revela que 2.504 municípios brasileiros, 45% do total, enfrentam essa carência informativa. O Nordeste lidera o ranking, com 890 municípios nessa condição, seguido pelo Sudeste (830) e Sul (457). O Piauí, com 163 municípios sem imprensa local, é o estado mais afetado na região. Sérgio Lüdtke, coordenador da pesquisa, aponta que, embora veículos digitais nativos tenham surgido para preencher essa lacuna, muitos fecham rapidamente, gerando uma alta volatilidade. De 942 veículos que fecharam em 2023, o número subiu para 1.460 em 2025. A facilidade de criar um site de notícias, especialmente para jornalistas com capital social em redes, contrasta com a fragilidade desses empreendimentos, muitos dos quais operam como "cavalos de Tróia", simulando jornalismo para disseminar conteúdo tendencioso em períodos eleitorais, uma prática facilitada pela inteligência artificial.

Vulnerabilidade e Desinformação

Os cargos mais locais, como prefeito e vereador, são os mais impactados pela ausência de imprensa. Lüdtke identifica três problemas principais: a falta de fiscalização do poder local, a existência de veículos atrelados a grupos políticos e a dependência exclusiva de informações compartilhadas em aplicativos de mensagens e redes sociais. Sites que simulam veículos jornalísticos, inserindo conteúdo de interesse de candidatos específicos, tornam-se uma ameaça real. As prefeituras, com recursos para produzir conteúdo próprio, também podem gerar um viés, pois seus sites, embora informativos sobre serviços, operam sob os interesses do poder vigente e não como veículos de fiscalização independente. O defeso eleitoral, que limita a divulgação de informações para evitar o uso da estrutura estatal em benefício de candidaturas, não resolve a questão da falta de jornalismo investigativo e fiscalizador.

A Resistência das Rádios Comunitárias

Apesar do cenário desafiador, as rádios comunitárias ainda representam um pilar de comunicação em muitas localidades. A Associação Brasileira de Rádios Comunitárias (Abraço Brasil) congrega cerca de 5 mil rádios no país. Em São Francisco de Assis do Piauí, a Serra FM, que opera voluntariamente, serve como principal meio de informação para os 5.572 habitantes. Fundada em 1999 e outorgada em 2007, a rádio, que hoje transmite online, mistura entretenimento, religião e informes sindicais. Severino Tomaz de Carvalho, coordenador voluntário, destaca o WhatsApp como ferramenta de interação direta com os ouvintes, que se sentem parte da programação. No entanto, a rádio evita coberturas eleitorais diretas por receio de infringir regras eleitorais em constante mudança, apesar de os boletins de urna serem afixados e disponibilizados para consulta.

O Futuro da Informação Local

O rádio comunitário, como a Serra FM, ainda é o veículo onde os programas eleitorais são veiculados, e santinhos e carros de som persistem como estratégias de campanha. Contudo, a crescente influência da internet e das redes sociais abre espaço para informações duvidosas. Carvalho defende o rádio como um meio de comunicação seguro, pois a verificação da informação é uma prática inerente à sua operação, ao contrário das plataformas digitais, onde qualquer pessoa pode publicar o que desejar. Essa segurança e proximidade com a comunidade conferem ao rádio um potencial único para combater a desinformação e fortalecer a cidadania em regiões carentes de jornalismo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · MIT Tech Review Brasil