Em meio ao burburinho da PAD London, a galeria belga Objects with Narratives convida os visitantes a desacelerar e a contemplar o que resta. A exposição "What Remains?", em sua segunda participação na renomada feira de design, é uma ode à materialidade e à passagem do tempo, apresentando peças que desafiam a noção de fabricação convencional. Em vez de objetos polidos e perfeitos, somos confrontados com designs que parecem ter sido encontrados, carregando consigo uma história implícita, uma alma que transcende o momento de sua criação.
A curadoria de Nik, Robbe Vandewyngaerde e Oskar Eryatmaz, fundadores da Objects with Narratives, foca em peças com texturas ricas e superfícies patinadas, que evocam uma sensação de antiguidade ou de descoberta fortuita. Essa abordagem estética, descrita pela galeria como "craftsmanship in the present, yet many carry a sense of the past, as though found rather than fabricated" (artesanato no presente, mas muitas carregam um senso do passado, como se encontradas em vez de fabricadas), ressoa com uma crescente busca por autenticidade e profundidade no mundo do design colecionável. Em um cenário onde a produção em massa e a perfeição técnica muitas vezes dominam, essa exposição oferece um respiro, um convite à reflexão sobre o valor da imperfeição e da narrativa em um objeto.
A Busca pela Autenticidade
A exposição "What Remains?" se destaca por sua ênfase em materiais que envelhecem com graça e em técnicas que conferem aos objetos um caráter único. O designer belga Ben Storms, por exemplo, apresenta "Ex Hale", uma mesa de centro em ônix mexicano com veios marcantes, cuja forma de almofada, obtida por meio de hidroformagem e fresagem em pedra, desafia a percepção da dureza do material. A peça parece macia e convidativa, uma ilusão ótica que joga com nossas expectativas sobre a materialidade. Essa habilidade de transformar o duro em suave, o industrial em orgânico, é um dos pilares da exposição, demonstrando como o design contemporâneo pode reinterpretar a relação entre forma e substância.
Paul Cocksedge, designer britânico, contribui com "Critical Mass", uma estante autoportante em aço Corten. O material, conhecido por sua pátina enferrujada que se desenvolve com o tempo, confere à peça uma aparência robusta e, ao mesmo tempo, efêmera, como se estivesse em constante transformação. A disposição dos três componentes metálicos que suportam as prateleiras sugere uma tensão inerente, um equilíbrio precário que evoca a energia de um momento prestes a colapsar ou explodir. Essa busca por objetos que pareçam carregar uma história, que sugiram um passado ou um futuro incerto, é o fio condutor que une as diversas peças apresentadas.
O Diálogo com o Tempo
Outros artistas e designers na mostra exploram essa mesma linguagem. Sofie Middernacht, com sua mobília em aço revestido de resina carmesim, cria peças que intencionalmente se assemelham a artefatos arqueológicos, utilizando materiais industriais descartados para construir objetos com uma aura de descoberta. Jojo Corväiá, por sua vez, emprega argila vulcânica em seus vasos, um material intrinsecamente ligado à história geológica e à força da natureza. A inclusão de luminárias de Karl Monies, feitas de cobre em mosaico, e de peças têxteis de KRJST Studio, com seus pelos de mohair e lã, adiciona camadas de textura e sensibilidade tátil à experiência, reforçando a ideia de que o design colecionável pode ser tanto um deleite visual quanto uma carícia ao tato.
A própria galeria, Objects with Narratives, estabelecida em um antigo ateliê de peles dos anos 1920 em Bruxelas, personifica essa filosofia. Ao escolher um espaço com história e ao apresentar objetos que dialogam com o passado, a galeria se posiciona como uma curadora de narrativas, oferecendo ao público não apenas peças de design, mas fragmentos de histórias, convites à contemplação sobre o que permanece quando o tempo avança.
Implicações e o Mercado Brasileiro
A tendência de valorizar o design que parece "encontrado" em vez de "fabricado" reflete um movimento mais amplo no mercado de arte e design colecionável, onde a autenticidade, a história e a materialidade ganham cada vez mais destaque. Colecionadores buscam peças que se diferenciem, que possuam uma profundidade que vá além da estética superficial. Essa busca por objetos com "alma" pode ser vista como uma resposta à homogeneização do design em massa e a um desejo crescente por conexão com o tangível e o duradouro. No Brasil, onde a riqueza de materiais e a tradição artesanal são abundantes, essa abordagem pode encontrar um terreno fértil, inspirando designers a explorar a história e a textura de materiais locais para criar peças que contem histórias únicas.
A atenção dada a peças que evocam o passado, a imperfeição e a passagem do tempo sugere que o valor de um objeto de design não reside apenas em sua forma ou função, mas também na narrativa que ele carrega e na emoção que ele desperta. A exposição "What Remains?" é um testemunho dessa evolução, mostrando que, no universo do design colecionável, às vezes o mais valioso é aquilo que parece ter resistido ao teste do tempo, como uma descoberta preciosa.
Perguntas em Aberto
O que exatamente confere a um objeto a sensação de que ele pode sobreviver ao momento de sua criação? É a escolha do material, a complexidade do ofício, ou a própria possibilidade de que alguns objetos simplesmente pertencem a nenhum tempo específico? A exposição "What Remains?" levanta essas questões sem oferecer respostas definitivas, convidando o público a formar suas próprias conclusões. Essa ambiguidade é parte do charme, permitindo que cada peça ressoe de maneira pessoal com o observador, evocando memórias, sensações ou aspirações.
A trajetória da Objects with Narratives, desde sua fundação até a consolidação como uma plataforma de design colecionável de vanguarda, demonstra uma visão clara e uma execução consistente. A galeria não se limita a exibir objetos bonitos; ela curadoria experiências que convidam à reflexão sobre o papel do design em nossas vidas e sobre a relação intrínseca entre arte, materialidade e tempo. A exposição em Londres é apenas mais um capítulo dessa narrativa, um convite para olhar para o design com outros olhos, valorizando a história que cada peça carrega.
O que resta, afinal, é a pergunta que ecoa pelas salas da PAD London, um convite para apreciar a beleza encontrada na imperfeição, na textura e na passagem ininterrupta do tempo. A mostra nos lembra que, em um mundo cada vez mais efêmero, os objetos que parecem ter uma história para contar são aqueles que verdadeiramente capturam nossa imaginação e permanecem conosco, como relíquias de um passado que se recusa a desaparecer completamente.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Dezeen





