O estúdio multidisciplinar Design ni Dukaan concluiu a residência Amaltash, localizada na cidade de Navsari, em Gujarat, Índia. Com 1.115 metros quadrados, o projeto busca equilibrar as exigências climáticas locais com uma linguagem arquitetônica inspirada pelos mestres do modernismo, Le Corbusier e Balkrishna Doshi.

A construção, que enfrenta verões de calor extremo, utiliza um pátio central ajardinado posicionado no quadrante sudoeste. Segundo informações do portal Dezeen, essa estratégia visa proteger os interiores da incidência solar direta, criando um microclima capaz de reduzir as temperaturas internas sem depender exclusivamente de sistemas artificiais de climatização.

A influência modernista na prática

A estética da residência é definida por blocos geométricos em tons neutros que se organizam ao redor do pátio. O fundador do estúdio, Veeram Shah, atribui a clareza formal da obra à sua formação técnica e à influência direta de figuras como Girish Doshi, mentor de Shah, além dos legados de Corbusier e Balkrishna Doshi, ícones que moldaram a arquitetura indiana moderna.

Mais do que uma referência visual, a escolha da geometria responde a uma necessidade de clareza espacial. O projeto demonstra como o modernismo pode ser interpretado não como uma imposição estética, mas como uma ferramenta de adaptação ambiental, permitindo que a luz e o vento sejam controlados através da disposição dos volumes construídos.

O desafio da tradição e do contexto

Um dos pontos centrais do projeto foi a integração do Vastu Shastra, o sistema tradicional indiano de planejamento espacial. Shah descreve o Vastu como uma lógica ambiental e espacial que, longe de ser um entrave, atua como um catalisador criativo para o design, exigindo que os arquitetos encontrem soluções inovadoras para restrições específicas dos clientes.

O acabamento externo, batizado de Dholpuri, exemplifica esse rigor. Desenvolvido in-house após experimentos táteis, o material busca uma "imperfeição controlada" que confira textura à fachada, afastando-se da rigidez industrial e aproximando o edifício da escala humana e artesanal.

Stakeholders e a economia do design

A residência funciona também como um hub de colaboração. O Design ni Dukaan integrou móveis e instalações de designers emergentes de toda a Índia, como a luminária de Harshita Jhamtani e peças da The Wicker Story. Essa rede de apoio fortalece o ecossistema de design local, provando que projetos residenciais de grande escala podem fomentar a economia criativa regional.

Para o mercado brasileiro, o caso ecoa a importância da arquitetura bioclimática. Assim como em Gujarat, o uso de pátios e materiais locais em regiões de clima quente no Brasil é uma estratégia recorrente, reforçando a necessidade de uma arquitetura que dialogue com as condições geográficas em vez de ignorá-las.

Perspectivas e incertezas

A eficácia a longo prazo do sistema de ventilação natural e a durabilidade do acabamento Dholpuri sob condições climáticas intensas permanecem como pontos de observação. O projeto levanta questões sobre como o design contemporâneo pode continuar a evoluir sem perder o vínculo com as raízes culturais e as exigências ambientais.

O sucesso de Amaltash sugere que a arquitetura do futuro dependerá da capacidade dos escritórios em equilibrar tecnologia, tradição e sustentabilidade. Com reportagem de Dezeen

Source · Dezeen