A luz percorre os vãos circulares da instalação Slow2 como se buscasse o caminho de volta para casa, filtrada por uma membrana translúcida que guarda a memória do oceano. No estande de 388 por 200 centímetros em Milão, o designer Sung Yun Jang não apenas montou um objeto de iluminação, mas construiu uma ponte entre o rigor da engenharia moderna e a fluidez quase imperceptível da natureza. O material que envolve a estrutura de aço não é plástico, nem resina sintética, mas uma composição à base de ágar derivado de algas marinhas, moldado para capturar sombras e expandir a percepção do espaço. É uma presença silenciosa que, ao mesmo tempo que ocupa o ambiente, parece querer dissolver-se nele.
O projeto, apresentado durante o Salone Satellite 2026, é o segundo capítulo de uma série que Jang intitula Slow Project. O objetivo aqui não é a substituição apressada de insumos industriais, mas a criação de uma linguagem estética própria, onde a sustentabilidade deixa de ser uma obrigação técnica para se tornar uma escolha poética. Ao utilizar pigmentos extraídos de páprica e gardênia, que tingem a estrutura com um degradê que parte do tom natural das algas e ascende a um vermelho profundo, Jang convida o observador a uma reflexão sobre a origem e o destino final de tudo o que compomos. A instalação, com seus 150 por 160 centímetros, atua como um manifesto silencioso sobre a economia da matéria no design atual.
A geometria do vazio e a tradição coreana
A estrutura de Slow2 encontra seu alicerce conceitual no baramgil, um princípio da arquitetura tradicional coreana que prioriza o alinhamento de aberturas — portas e janelas — ao longo de um único eixo. Esse alinhamento não serve apenas para a ventilação natural, mas para criar camadas de profundidade visual, onde o olhar atravessa sucessivos planos de luz e sombra. Ao transpor essa lógica para uma instalação de iluminação, Jang utiliza a repetição de formas circulares para construir um volume que é, paradoxalmente, transparente. Cada círculo de 50 centímetros de diâmetro atua como uma moldura que sustenta não apenas a luz, mas a própria ideia de continuidade espacial.
Para a montagem, o designer recorreu à técnica de empilhamento observada na Pagode de Pedra de dez andares do Templo Gyeongcheonsa, datada do período Goryeo. A sobreposição de camadas de material biodegradável sobre o esqueleto metálico cria uma textura linear que remete à acumulação de pedras, conferindo uma dignidade ancestral a um material que, em outro contexto, seria visto como efêmero. A escolha de não esconder a estrutura metálica, mas de integrá-la ao sistema de iluminação LED e tubulação isolante, revela uma honestidade construtiva que raramente é encontrada em objetos de design que buscam o minimalismo absoluto. O resultado é um objeto que parece ter sido cultivado, e não apenas fabricado.
A alquimia do ágar como sistema estrutural
O uso de ágar como base estrutural coloca Slow2 em um território pouco explorado pelo design industrial. Diferente de outros polímeros biodegradáveis que buscam imitar a rigidez e a durabilidade do plástico, o material de Jang abraça suas próprias limitações, transformando-as em características estéticas. O ágar, quando processado sem aditivos químicos, oferece uma superfície que reage de maneira única à luz artificial, difundindo-a com uma suavidade que seria impossível obter com materiais sintéticos convencionais. A integração com pigmentos naturais reforça essa organicidade, criando uma transição de cores que não parece aplicada, mas intrínseca à própria matéria.
Essa abordagem desafia a lógica dos sistemas de fabricação industrial, que frequentemente tratam a biodegradabilidade como um fim em si mesma, ignorando a performance estrutural. Jang demonstra que é possível alinhar a continuidade entre o que é visível e o que é funcional, utilizando o material não como uma muleta ecológica, mas como um meio de expressão espacial. Ao manipular a transparência e a repetição, o designer cria um sistema que respira, onde a luz não é apenas emitida, mas filtrada através da densidade variável da estrutura. É um exercício de controle e desapego, onde o designer assume que o material, por sua própria natureza, possui um ciclo de vida que transcende o tempo de exposição em uma feira de design.
Implicações para um design consciente
Para o mercado de design, a proposta de Sung Yun Jang levanta questões sobre a longevidade dos objetos que produzimos em larga escala. Se um material pode ser estruturalmente robusto e visualmente impactante enquanto mantém sua natureza biodegradável, por que a indústria ainda se apoia majoritariamente em derivados de petróleo? A resposta, talvez, esteja na complexidade do processo de fabricação, que exige um entendimento profundo da química dos materiais e uma paciência que o ritmo do consumo contemporâneo raramente permite. O sucesso de uma peça como Slow2 não reside apenas na sua beleza, mas na sua capacidade de provar que a inovação pode vir da observação atenta de técnicas ancestrais.
Para reguladores e fabricantes, a instalação serve como um lembrete de que a transição para materiais mais sustentáveis não precisa ser uma renúncia à estética. Pelo contrário, as limitações impostas por materiais orgânicos podem ser o gatilho para novas formas de expressão que a indústria, presa em moldes de injeção plástica, esqueceu como explorar. O desafio, agora, é escalar esse tipo de prática sem perder a essência que torna o objeto único. A conexão entre a sensibilidade coreana e as novas possibilidades da biotecnologia sugere um caminho onde o design de produto e a ciência dos materiais caminham de mãos dadas, transformando o estúdio em um laboratório de possibilidades futuras.
O futuro da matéria em suspensão
O que resta, após a luz se apagar e a instalação ser desmontada, é a pergunta sobre o papel do designer diante de um planeta que já não suporta o acúmulo de resíduos permanentes. Slow2 não oferece uma resposta definitiva, mas propõe um novo vocabulário. O que acontecerá quando esse material, hoje estruturado em torno de um esqueleto de metal, for eventualmente liberado de sua forma? A incerteza é parte integrante da estética do projeto, um lembrete de que tudo o que criamos possui um tempo de permanência.
Observar a evolução da série Slow Project nos próximos anos será fundamental para entender se essa linguagem pode ser traduzida para objetos de uso cotidiano ou se permanecerá restrita à esfera da arte e da instalação. A eficácia da combinação entre pigmentos naturais e biopolímeros abre portas para uma nova geração de mobiliário e iluminação que, talvez, possamos chamar de 'vivos'. Até lá, as formas circulares de Jang permanecem como um convite para olharmos através do design, buscando não apenas o que vemos, mas o que a matéria tem a nos dizer sobre o amanhã.
A luz que atravessa os círculos de Slow2 deixa um rastro de sombras que parecem dançar com a luz natural, criando uma coreografia que muda conforme o dia avança. É uma experiência que nos força a desacelerar, a observar o detalhe da textura e a sutileza da cor, lembrando-nos de que a beleza, muitas vezes, reside naquilo que estamos prestes a perder. O que resta de uma obra quando ela se integra ao ciclo da natureza?
Com reportagem de Designboom
Source · Designboom





