A memória em Burkina Faso é uma força perene, quase física, que carrega o peso de gerações passadas sobre os ombros de quem ousa construir o futuro. Para Diébédo Francis Kéré, o primeiro arquiteto africano a receber o Prêmio Pritzker, em 2022, essa consciência nunca foi um suporte confortável, mas sim uma sombra constante. Em seu novo livro, 'Francis Kéré: Building Stories', o arquiteto de 61 anos despoja-se da aura de laureado para revelar o homem que, décadas atrás, temia ser lembrado apenas pelo erro que condenaria sua linhagem ao escárnio público. Não se trata de uma biografia técnica, mas de um diário de sobrevivência.
O peso da primeira pedra
O medo que acompanhou Kéré durante a construção da Escola Primária de Gando, concluída em 2001 enquanto ele ainda era estudante em Berlim, não era infundado. Naquela época, o uso de blocos de argila não queimada era visto com profunda desconfiança por seus conterrâneos, que duvidavam da resistência do material diante da força das chuvas e da erosão. Kéré descreve esse período como uma batalha contra o ceticismo coletivo, onde a falha não seria apenas um revés profissional, mas uma mancha indelével na história de sua família. Ele confessa, com a franqueza de quem ainda sente o tremor da incerteza, que visualizava as futuras gerações apontando para as ruínas de seu projeto como prova de sua arrogância.
A materialidade como resistência
A trajetória de Kéré desafia a lógica do mercado global de construção, que frequentemente ignora os recursos locais em favor da importação de métodos industrializados. Ao utilizar terra compactada e laterita em projetos de grande escala, como o Memorial Thomas Sankara em Ouagadougou, ele não apenas reduz o impacto ambiental, mas subverte o preconceito de que materiais vernaculares são símbolos de subdesenvolvimento. Para ele, a arquitetura é um exercício de 'fazer o bem', uma filosofia que se traduz em identificar o que é essencial para a comunidade. O uso da argila, antes visto como um insulto à modernidade, tornou-se, sob seu traço, um emblema de orgulho e solidez técnica.
A política do espaço e a pressão pública
O Memorial Thomas Sankara, concluído em 2025, ilustra a tensão entre a função pública e a responsabilidade histórica que Kéré carrega. Projetar um mausoléu para um herói nacional sob o olhar atento do Estado impõe um tipo diferente de pressão, onde cada decisão estética é lida politicamente. O arquiteto admite que o desafio de elevar materiais humildes ao status de monumento nacional foi um exercício de convencimento constante. A obra, que inclui uma torre de 100 metros, prova que a sofisticação não reside na exclusividade dos insumos, mas na capacidade de conferir significado profundo ao que está ao alcance das mãos.
O horizonte do arquiteto
O que permanece após a leitura de suas reflexões é a percepção de que a arquitetura, para Kéré, nunca foi um fim, mas um meio de conexão vital. Ele insiste que, mesmo sob o peso das expectativas globais e dos orçamentos restritos, o arquiteto não deve perder a capacidade de sonhar. A aceitação do barro como material nobre em diversos pontos do continente africano hoje é o resultado de uma vida inteira de provações. Resta saber como as próximas gerações, inspiradas por seu legado, equilibrarão essa busca pela inovação técnica com a necessidade de preservar as raízes que, segundo o próprio Kéré, sustentam a existência.
Ao fechar o livro, a pergunta que ecoa não é sobre os prêmios conquistados, mas sobre o que resta quando o concreto — ou a terra — finalmente assenta. Kéré nos deixa com a imagem de um homem que, apesar de ter superado as expectativas de sobrevivência que o mundo lhe impôs na juventude, ainda olha para trás para garantir que o caminho aberto permaneça transitável para os que virão.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Dezeen





