A luz incide sobre uma rocha em um leito de riacho, revelando marcas que logo desaparecerão sob a correnteza. Para a artista Dionne Lee, esse gesto efêmero é mais do que uma intervenção estética; é uma forma de resistência. Ao documentar essas intervenções, Lee não busca a captura definitiva da natureza, mas sim um diálogo sobre o que significa pertencer a um lugar quando a história pessoal e coletiva é marcada pelo desenraizamento. Sua trajetória, agora reunida no livro Currents, propõe uma reorientação do olhar, afastando-se da tradição da fotografia de paisagem como um ato de conquista para aproximar-se de uma prática de escuta e reconhecimento.

Em conversa com a artista Gabrielle L’Hirondelle Hill, Lee articula o que chama de "conflito de pertencimento". Crescida no Harlem, em Nova York, a fotógrafa descreve como a história indígena parecia invisível na metrópole, uma sensação que se transformou em agitação ao visitar locais como o Chaco Canyon. Essa inquietação, que ela identifica como uma forma de luto, é o motor de sua pesquisa artística. A obra de Lee não oferece respostas prontas; ela funciona como um mapa lento de reparação, onde a fotografia deixa de ser um instrumento de extração para se tornar um registro de presença.

A política do olhar e o legado da extração

A história da fotografia, como pontuado pelas artistas, está intrinsecamente ligada a processos de extração colonial. Desde o uso de manuais de sobrevivência até a observação de formações geológicas, Lee nota que o modo como a câmera enquadra o mundo frequentemente reforça a posição do observador como um "conquistador". Ao optar por não utilizar equipamentos de grande formato ou lentes que buscam o domínio total do horizonte, a artista subverte as expectativas do gênero. Ela prefere a escala reduzida, o detalhe, e o uso de materiais que enfatizam a impermanência.

Essa abordagem desafia a ideia de que a arte deve ser, por definição, um objeto estável e comercializável. Ao criar instalações de rochas que serão eventualmente devolvidas à terra, Lee recusa a lógica da posse. O ato de fotografar, para ela, torna-se uma forma de pesquisa corporal, uma maneira de acessar memórias que não estão apenas nos arquivos, mas armazenadas na própria musculatura, prontas para serem despertadas por gestos ancestrais.

O corpo como arquivo de memória

A relação entre o corpo e o território é o eixo central do trabalho de Lee. Ao estudar técnicas de sobrevivência, como a construção de fogo, ela descobriu músculos latentes, uma memória física que conecta gerações. Essa perspectiva transforma a paisagem em um arquivo vivo. Quando Lee utiliza varas de radiestesia como ferramentas de navegação em seus vídeos, ela não busca água, mas sim orientar-se em um mundo que, historicamente, tentou apagar sua linhagem.

O espiral, forma recorrente em seus trabalhos e nos petróglifos que observou no Chaco Canyon, serve como metáfora para esse processo. Não é um caminho linear de descoberta, mas um movimento de retorno e aprofundamento. A arte, nesse contexto, atua como uma forma de pensar que acessa camadas da identidade que o mundo exterior frequentemente tenta suprimir. É um exercício de sobrevivência que se manifesta no movimento, na sombra e na persistência do gesto.

A busca por um lugar de retorno

As implicações do trabalho de Lee estendem-se para além do campo artístico. Ao questionar quem tem o "direito" de estar em determinados lugares, ela convida o espectador a refletir sobre a responsabilidade ética de ocupar o espaço. Para o mercado de arte, acostumado à estabilidade e à preservação, a proposta de uma obra que se desfaz ou que se recusa a ser consumida é um contraponto necessário. A conversa entre Lee e Hill sugere que o pertencimento não é um estado estático, mas algo que deve ser cultivado diariamente.

Para o ecossistema brasileiro, onde a discussão sobre posse de terra e identidade é urgente, o trabalho de Lee ressoa como um lembrete da importância de ouvir o território. A arte, quando concebida como uma ferramenta de pesquisa, pode revelar as tensões invisíveis que moldam a nossa convivência com a natureza e com a memória dos que nos antecederam.

O futuro da paisagem como narrativa

O que permanece incerto, porém, é como essa prática de "deixar o menor rastro possível" pode influenciar o futuro da produção cultural em larga escala. À medida que Lee se prepara para novos projetos, incluindo uma investigação mais profunda no Sul dos Estados Unidos, a pergunta sobre como mapear o que foi sistematicamente apagado continua aberta. O trabalho não termina com a imagem final; ele persiste na lacuna entre o que é capturado e o que permanece indizível.

Observar a evolução de Lee é acompanhar um processo de aprendizado contínuo, onde o erro e a hesitação são partes fundamentais do método. O que resta, ao final de Currents, é a imagem de uma artista que não tenta impor sua visão sobre a terra, mas que se deixa transformar por ela, passo a passo, em um movimento que é, ao mesmo tempo, pessoal e universal.

A fotografia, em sua obra, deixa de ser um espelho do ego para se tornar uma janela para a linhagem. Resta saber se o mundo da arte, tão ávido por definições, conseguirá acompanhar o ritmo de uma caminhada que prefere o mistério da pergunta à segurança da resposta. O horizonte, na lente de Dionne Lee, nunca é um ponto final, mas um convite para continuar movendo-se através das sombras e dos sinais que a própria história insiste em deixar para trás.

Com reportagem de Aperture

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